quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Das truculências dos atuais espaços democráticos…

Pois é, eu ando afastada de meus escritos, uma vez que as tarefas cotidianas tornam difícil vir ao blog e atualizá-lo…

Mas hoje, sinceramente, ao ver uma notícia, compartilhada por uma amiga no Facebook, não resisti. A notícia em questão era sobre professores da rede pública estadual de Fortaleza, que “entraram em conflito” com o batalhão de choque, na Assembléia Legislativa. Ora, entraram em conflito com batalhão de choque quer dizer, em liguagem bem explícita, porrada, sangue e gritaria…

Sabe o que me espanta, neste e em outros casos? O quanto está se tornando comum, rotineiro, fato vulgar e banal, os “conflitos” com batalhões de choque em manifestações populares. Seja na Grécia, França, Espanha, Chile, São Paulo, Fortaleza, seja passeata por que passam fome, precisam de emprego, salários, educação, saúde…

É estranho pensar que em uma sociedade “democrática”, cujos cidadãos elegem sujeitos para representá-los, em uma sociedade em que se pede coisas que não são banais (me parece que comida, educação, saúde e condições de trabalho são reinvindicações para lá de justas) exatamente para estes sujeitos que, teoricamente, nos representam, nos recebem com porrada (por outros sujeitos, também pagos por nós – diga-se de passagem). Isto é o cúmulo da ridicularização popular: o povo paga para apanhar… Apanhamos, de fato, de nós mesmos.

O que me incomoda é o fato de aceitarmos como óbvio que resistência, passeata e reinvindicações de coisas ÓBVIAS virem trajédia anunciada, e comumente escutemos que nestes dias temos mais é que ficar em casa, pois juntação de gente pode acabar nisso…

O que me incomoda é que lutas justas virem falácias políticas, que trabalhadores (que estudam e muito) passem por vagabundos e marginais, arruaceiros… Me entristece que corrupção seja notícia cotidiana e porrada no povo (pelo povo) seja consequência.

E me entristece, muito e sempre, ver professor batalhando para ganhar não mais… mas o justo!

(e vale a pena ler a reportagem e ver o vídeo lá no site… Sério, fiquei chocada – não só com a porrada, mas com o resto todo. Vale a pena!)

Até pensei em escrever sobre estas relações atuais, de democracia e violência, mas fiquei tão chocada com mais esta, que ficará para a próxima! Hoje foi só um desabafo…

quarta-feira, 20 de abril de 2011

II Passeio eco-ciclístico pela APA Rota do Sol

Ontem recebi um e-mail de uma colega e resolvi divulgar aqui. Achei interessante o vídeo e, claro, o tema…

O vídeo, que está no youtube, apresenta um passeio de bicicleta como um protesto contra a fauna atropelada na Rota do Sol. Também apresenta alguns números alarmantes, tais como o de quase 80 animais silvestres atropelados diariamente, nesta estrada, durante a alta temporada.

Fora a conscientização do evento em si, como este blog é de Educação em Ciência, mais uma vez acho importante ressaltar o quanto uma ferramenta aparentemente “simples” como o youtube, que nossos alunos certamente sabem usar com mais destreza que nós, pode ser útil e eficiente para levar um debate sério – que não deixa de ter conteúdo – e que pode, sim, articular ciência e cultura.

Enfim… Achei o vídeo legal pois mostra imagens desta estrada, que é linda, realmente linda! E que, se nós podemos trafegar por ela… por qual motivo não os animais? Smiley piscando

Até a próxima!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ciência na escola…

ResearchBlogging.org

Ando bem empenhada (e ano que vem estarei mais ainda) com tudo o que envolve ciência e escola, o ensino de ciências, educação científica, enfim… a compreensão do que é e como se faz ciência por aí!

Hoje vi uma reportagem muitíssimo interessante, sobre crianças, na Inglaterra, que fizeram um experimento com abelhas e publicaram na Biology Letters. Fui atrás do artigo completo, intitulado Blackawton bees, que pode ser lido aqui.

As crianças montaram o experimento com as abelhas, treinando-as para – nas palavras delas – resolver problemas “como nós” (humanos). A principal descoberta das crianças foi:

“Nós descobrimos que abelhas podem usar uma combinação de cores e relações espaciais para decidir em quais cores de flores buscar alimento. Nós também descobrimos que ciência é legal e divertida pois nós podemos fazer coisas que ninguém fez antes”. (tradução livre e tosca minha…)

O artigo é escrito em uma linguagem extremamente simples e direta. Muitas vezes, como deve ser, divertida! O que não tira a grandiosidade do trabalho, pelo contrário. Nos lembra que o conhecimento é uma construção humana, realizada pela curiosidade, pela observação, pelo exercício do pensar… “Será que…?”, “Por quê?”, “Como?” são perguntas comuns a cientistas e crianças. Pena que as vezes, na ciência, nos esquecemos da leveza e da alegria… preocupados com o tempo, os prazos, a competitividade – o que leva, inclusive, às publicações. Esta publicação é fruto de um trabalho criterioso, sério, rigoroso, mas com uma leveza de ser… Sem precisar publicar, sem a pressão insana de órgãos de fomento e de pontuações de currículo, elas foram lá e fizeram (com lápis de cor e tabelas coloridas).

Pode ser até um pouco ingênuo… Mas estas crianças nos trazem de volta a leveza de ser. Nos lembram que ensinar ciência não é o que tem sido feito… Minhas brigas constantes com professores desta área! Aliás, o que pouco se tem feito na escola é ensinar ciência. Ensina-se resultado científico! Ora, que desperdício de ideias, curiosidades, de mentes sãs e que pensam por si! Desperdiçamos, sim, estas crianças ao calá-las com inúmeros nomes, listas e decorebas inúteis, que nada fazem mais, do que deixar insosso (quando não deixa de lado mesmo) algo que é, no mínimo, o que é mais precioso para nossa espécie: o conhecimento (com responsabilidade e ética, sempre) e a possibilidade de produzi-lo.

E o conteúdo?!?! Bradam sempre aqueles que não se sentem encabulados por serem chamados de “conteudistas”… Sério que ensinar ciência deste modo não tem conteúdo? E agora? Eles não saberão todos os filos, todas as características, todas as coisinhas mais enfadonhas que ficamos repetindo desde o século XVIII para estas crianças (me incluo nisso, claro)! Como faremos agora que elas não sabem disso? Ah, sim… Elas não precisam disto, pois os livros estão recheados destas coisas. Elas sabem mais: como usar e pensar a partir disto. Ou melhor, ao ver o mundo, pensam (e agem) sobre ele! Que perigo não nos trará isso!!! É conteudistas, é melhor voltar para as classes, ordens, famílias, para não desequilibrar o mundo…

Quando vemos isso, também penso em tudo o que se diz, que é preciso de certo tempo – idade e maturidade – para aprender determinadas coisas. A compreensão de como se faz ciência precisa de tempo. De certo para entrar em moldes e padrões estabelecidos e modificar pouca coisa…

Pode ser que eu esteja dando mais valor ao artigo do que ele realmente mereça (duvido, no entanto). Mas realmente fico insuportavelmente feliz quando percebo que ainda pode ser divertido ensinar aquilo que eu escolhi como profissão: as Ciências Biológicas.

Certamente este artigo será leitura obrigatória no próximo semestre, só para começar. Não que isso vá mudar o mundo, claro… Nem a educação em ciências no Brasil. Não acredito muito nestas coisas… Se um professor (ou futuro professor) lembrar do quanto a biologia é maravilhosa, entenderá que ser professor desta área é (ou deveria ser) o máximo.

Outra coisa que chama a atenção no artigo é como podemos ter explicações claras, científicas, produzindo saber, sem soberba e com muito entusiasmo! E, olhe só, escrito em primeira pessoa (nós concluímos, nós aprendemos…). A simplicidade tem lugar no mundo dos adultos, e com ela aprendemos (de novo) o prazer de conhecer e explicar o que conhecemos!

Deixo, abaixo, a conclusão do artigo (original em inglês, pois adorei do jeito que está e pronto! rsrs).

“We conclude that bees can solve puzzles by learning complex rules, but sometimes they make mistakes. They can also work together (indirectly) to solve a puzzle. Which means that bees have personality and have their personal ‘likings’. We also learned that the bees could use the ‘shape’ of the different patterns of individual flowers to decide which flowers to go to. So they are quite clever, because they can memorize a pattern. This might help them get more pollen from flowers by learning which flowers might be best for them without wasting energy. In real life this might mean that they collect information and remember that information when going into different fields. So if some plants die out, they can learn to find nectar in another type of flower.

Before doing these experiments we did not really think a lot about bees and how they are as smart as us. We also did not think about the fact that without bees we would not survive, because bees keep the flowers going. So it is important to understand bees. We discovered how fun it was to train bees. This is also cool because you do not get to train bees everyday. We like bees. Science is cool and fun because you get to do stuff that no one has ever done before. (Bees—seem to—think!)”

Bom, nada mais me resta falar, fora o entusiasmo (que já deve ter sido notado por quem chegou até aqui) de ver este artigo… Ler “we like bees” em um artigo científico é simplesmente fantástico. Sim! Qual o motivo mais teríamos para pesquisar se não gostar daquilo que observamos? Qual o problema de gostarmos de nosso objeto de estudo? Enfim, fora estes devaneios, sinto-me lisonjeada por ter lido algo assim, que me mostra que realmente existe jeito para o mundo (e para a educação em ciências… rsrs).

Para terminar, só para variar um pouco, usarei um escrito de Mário Quintana (pois tudo isso que sempre falamos ele já sabia, e escrevia em forma de poema…)

APROXIMAÇÕES

Todo poema é uma aproximação. A sua incompletude é
que o aproxima da inquietação do leitor. Este não quer que lhe
provem coisa alguma. Está farto de soluções. Eu, por mim, lhe
aumentaria as interrogações. Vocês já repararam no olhar de
uma criança quando interroga? A vida, a irrequieta inteligência
que ele tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea,
definitiva, única — e verá pelos olhos dela que baixou vários
risquinhos na sua consideração.
(Mário Quintana, a vaca e o hipogrifo, p. 48)

Referência

Blackawton, P., Airzee, S., Allen, A., Baker, S., Berrow, A., Blair, C., Churchill, M., Coles, J., Cumming, R., Fraquelli, L., Hackford, C., Hinton Mellor, A., Hutchcroft, M., Ireland, B., Jewsbury, D., Littlejohns, A., Littlejohns, G., Lotto, M., McKeown, J., O'Toole, A., Richards, H., Robbins-Davey, L., Roblyn, S., Rodwell-Lynn, H., Schenck, D., Springer, J., Wishy, A., Rodwell-Lynn, T., Strudwick, D., & Lotto, R. (2010). Blackawton bees Biology Letters DOI: 10.1098/rsbl.2010.1056

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Projeto Novos Talentos

Hoje vou fazer só “auto-propagandas” (mas do bem… rsrsrs). Recebi por e-mail um vídeo com um pequeno trecho de um documentário que está sendo realizado em Porto Alegre (e será também em Rio Grande), por um projeto chamado Rede Novos Talentos. Este projeto, que acontece há alguns anos, visa apresentar a ciência para Adolescentes estudantes da Rede Pública de Ensino, convidando-os para pensar e viver o que é e como se faz ciência.

Eu conheci o projeto em 2003, quando ainda fazia mestrado na Faculdade de Educação (UFRGS). Eu e algumas colegas da Educação trabalhamos juntas com o pessoal da Pós-Graduação em Bioquímica, sob orientação dos Profs.Drs. Diogo O. de Souza e Nádia G. S. de Souza. Na época o projeto estava recém começando em Porto Alegre e foi ótimo, tivemos professores e alunos de quatro escolas participando do curso “Memórias, Aprendizagens e Constituição de Identidades”. Alguns dos professores voltaram, posteriormente ao curso e estágio, à universidade para seguir estudando em cursos de Mestrado e Doutorado e também alguns alunos buscaram cursos de graduação na área científica (inclusive permanecendo na universidade para cursos de pós-graduação também). Depois deste primeiro curso, tivemos mais três outras edições ainda em Porto Alegre.

Logo que vim morar nas bandas de Mato Grosso, afastei-me do projeto, mas não dos colegas com quem trabalhei naquela época! Agora teremos a oportunidade de desenvolver este projeto também aqui na universidade em que trabalho, a UNEMAT/Campus Tangará da Serra. O nosso projeto Novos Talentos também quer apresentar modos de fazer e pensar ciência aos adolescentes de nossa cidade aqui do interior, mostrando que este campo de atuação profissional é interessante e não está desvinculado da sociedade!

Os professores que irão trabalhar neste projeto que é atualmente financiado pela CAPES*,capes  são: Ana de Medeiros Arnt (eu!!!), Eduardo Bessa, Alessandra Regina Butnariu, Diogo Andrade Costa, Cecília de Campos França, Rejane Gambarra, Ivana Ferigolo, Maria Helena Rodrigues Paes, Sérgio Baldinotti, Hilton Marcelo de Lima Souza e Diones Krinski. Além deles, temos também vários alunos de graduação e pós-graduação que fazem parte deste time: Bruna Favetti, Angélica Massaroli, Jessica Cocco, Giliard Balduíno, Larissa de Souza Soares, Márcia de Souza, Thabatha Ferreira dos Santos, Joiciane Gonçalves Farias, Gesivânia Pires dos Reis, Ildebrando de Oliveira e Carla Cassanica.

É bastante trabalho e estamos animadíssimos com a oportunidade de mostrar aquilo que mais gostamos de fazer para outras pessoas (para que elas também vejam como fazer ciência é o máximo!!!). Já fizemos vários contatos com o pessoal de Porto Alegre e de Rio Grande para trocar experiência e aprender com eles um pouco mais do projeto!

Veja abaixo o trecho do documentário que sairá sobre o projeto em Porto Alegre (com o Professor Diogo Souza, alunos do Colégio Estadual Tubino Sampaio e pesquisadores do Depto. de Bioquímica da UFRGS).

Observações:

*Este projeto atualmente é financiado pela CAPES, para saber mais, clique aqui.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Netnografia e blogs: estratégias de pesquisa e outras coisinhas mais… (parte 1)

ResearchBlogging.orgMontardo, Sandra, & Passerino, Liliana (2006). Estudo dos blogs a partir da netnografia: possibilidades e limitações Novas tecnologias na Educação, 4 (2), 1-9

No artigo O estudo dos blogs a partir da netnografia: possibilidades e limitações, as autoras Sandra Montardo e Liliana Passerino discutem uma nova possibilidade de pesquisa a partir de conceitos da etnografia: a netnografia.

A etnografia é uma metodologia de pesquisa do campo da Antropologia, com uma história que inicia-se no século XIX, e busca conhecer um grupo cultural, seu sistema simbólico, de crenças e valores, através da imersão do pesquisador no grupo estudado. A etnografia usa como ferramentas de pesquisa, especialmente, a observação, entrevistas e conversas formais ou informais, a produção de um diário de campo com as anotações (descrições e transcrições) e fotografias e outros materiais provenientes desta estada na cultura pesquisada*.

O artigo em questão, discute algumas possibilidades de pesquisa no ‘mundo virtual’ com ferramentas metodológicas inspiradas, por assim dizer, na etnografia: a netnografia.

Assim como a “original”, a netnografia traz também um sentido de imersão em um meio cultural, ou produtor de cultura. Entendendo que a internet é não só um meio de comunicação, mas também um espaço de convivência, produção de sentidos, que reúne grupos e comunidades por interesses comuns e, também, produz sentidos e valores no mundo, sendo, portanto,  produtor de cultura**. Apesar de, muitas vezes, tais pesquisas (em comunidades ou ambientes de comunicação virtuais) parecerem banais e serem muito criticadas, é importante ressaltar o quanto hoje, notadamente, as discussões e as produções deste meio dito ‘virtual’ interferem e produzem efeitos no que se insiste em chamar de ‘real’ (não que não exista diferença entre real e virtual, mas claramente as fronteiras produzem efeitos na vida “real” das pessoas, bem como a vida dos sujeitos ditos “reais” também é construída nestes meios virtuais, e suas relações sociais se dão nestes meios, muitas vezes com laços tão fortes quanto os chamados “reais”).

Voltando às questões metodológicas, é a partir dos estudos de Christine Hine (Etnografia Virtual) que as autoras apresentam as aproximações possíveis no estudo de comunidades virtuais, inicialmente, e depois em blogs. Montardo e Passerino, no entanto, ressaltam a necessidade, obviamente, de adaptações no uso das ferramentas metodológicas, não podendo-se tomar “ao pé da letra” a etnografia para pesquisas no mundo virtual.

Como “vantagens” em relação à etnografia, a netnografia (segundo Montardo e Passerino, p.9), teria: (a) facilidade de busca e coleta de dados; (b) amplitude da coleta e armazenamento (no tempo e no espaço); (c) desdobramento da pesquisa com rapidez. Como desvantagem, principalmente, seria o grande risco de excesso de informações, perda de foco na pesquisa e a dificuldade de cumprir as exigências éticas da pesquisa, o que discorro brevemente abaixo.

Ao longo do artigo, para quem se interessar, há mais apontamenos acerca do “como” se utiliza esta metodologia. O que me interessou neste artigo são as questões de ética, levantadas pelas autoras. Em especial, elas trazem as seguintes perguntas:

1) Foruns on line são públicos ou privados?

2) O que constitui o consentimento informado no ciberespaço?

Dentro da etnografia, o grupo estudado consente formalmente na realização da pesquisa e, além disso, pode decidir não mais participar do estudo (ou seja, não ser mais “objeto de estudo”) quando assim desejar. Em uma rede virtual, será isso possível? Entendendo que em alguns espaços é necessário realizar um cadastro para ter acesso às informações pessoais de integrantes (como Orkut, Facebook e outros deste tipo), talvez seja interessante se pensar nas implicações éticas de usar informações pessoais (incluindo comunidades que participam, discussões que fazem nestas, recados entre amigos, usos gerais deste espaço virtual...), uma vez que as informações não estão “soltas” na internet para todos verem. Afinal, é necessário cadastro, pedidos para interagir (ser amigo ou participação nas comunidades) e outros procedimentos mais ou menos restritos.

No caso dos blogs, a questão dos consentimentos informados, ao que me parece, tornam-se mais complexos. Sendo um blog sem restrições (que todos podem ler e comentar – mesmo que os comentários sejam moderados), os escritos estão publicados (isto é, foram tornados públicos). Fiquei perguntando-me (coisa que faço muito, sempre…): não pedimos autorização, por exemplo, quando realizamos uma pesquisa (com análise de discurso ou análise textual) de revistas e/ou jornal, enfim, de textos publicados. Qual o motivo de termos autorização (ou consentimento, termo mais apropriado talvez) para realizar sobre o blog? As autoras argumentam ainda em relação aos comentários, o que também penso ter o mesmo sentido: quando comentamos, nós publicamos para todos (os que quiserem) ler e, inclusive, comentar, retrucar, chutar, maltratar, elogiar…

No debate realizado em sala de aula***, também foi levantada a ideia de que os posts não são escritos com o intuito de serem usados academicamente (no sentido de objetos de pesquisa). Novamente, foi abordado que, talvez, realmente não tenham este objetivo, da mesma maneira que jornais e revistas impressas e eletrônicas, o objetivo (o meu, claro) é ser lido, que alguém leia, se interesse, comente. Mas os usos a serem feitos? Bem, estes são os riscos que corremos ao publicar (no sentido de tornar público) o que pensamos e falamos… Se este é um espaço de produção de significados e valores (hehehe, me achei agora… não sei se este blog, especificamente, é para tanto, rsrsrs), como qualquer outro espaço cultural, é fonte e objeto de pesquisa também, como de simples olhadelas curiosas, clicadas desinteressadas em buscas no google, cliques acidentais por aí, ou buscas (por que não?) interessadas também (afinal, não é de todo ruim, né???).

A outra questão que fiquei me interrogando acerca deste artigo, foi em relação à preocupação com a veracidade das informações pessoais (dos perfis dos bloggeiros, das postagens dos blogs, dentre outras coisas). Mas… Esta postagem já ficou gigantesca e, nesta altura do campeonato, poucos ainda devem estar lendo, então isto ficará para outro post, aguardem…

Só para constar, no fim, abaixo está a apresentação que fiz, correspondente a este texto, para o seminário.

* Para saber mais sobre etnografia, os autores Clifford Geertz (Ex. Estar lá, escrever aqui. Diálogos, São Paulo, v.22, n.3, 1989, p.58-63; Nova luz sobre a Antropologia, ed. Zahar) e Tereza Caldeira (A presença do autor e a pós-modernidade em antropologia. Novos Estudos, n. 21, Campinas: CEBRAP, 1988, p. 133-157) apresentam importantes discussões e um bom aporte teórico, inclusive para quem está iniciando os estudos no campo.

** Cultura entendido aqui não somente como “o melhor que foi e é produzido pela sociedade humana”, mas todas as práticas sociais e produções humanas, aquilo que tem ou produz sentidos/significados na sociedade. Para ler mais acerca desta noção de cultura, ler Nelson, C., Treichler, P. A. & Grossberg, L. Estudos Culturais em Educação: Uma introdução. In: Silva, T. T. da (org.) Alienígenas em sala de aula. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. p. 7-38.

***Este post foi feito em função do debate gerado na disciplina Caçadores de identidade: drops sobre tribos urbanas da atualidade, oferecida pela Profª.Drª. Elisabete Garbin, com participação das Profª.Drª. Clarice Traversini e Profª.Drª.Maria Luíza Xavier, no Programa de Pós-Graduação em Educação (FACED/UFRGS).

domingo, 11 de abril de 2010

Sobre Tamanduás mirins, alegrias e tristezas

Ontem à noite, saindo da casa de uma amiga, percebemos (meu marido e eu) um vulto escuro na rua. Já era tarde e nas proximidades da casa há muito mato e terrenos vazios (ainda), além de ter pouco movimento de carros, motos e bicicletas. É comum vermos corujas buraqueiras no meio da avenida, sempre que voltamos para nossa casa. Ao observar aquele vulto, automaticamente reduzimos a velocidade do carro, eu imaginei que era um cachorro pequeno que perambulava por ali. O carro à nossa frente, também de um amigo, também havia reduzido a velocidade e, chamou-me a atenção, parou brevemente. Ao nos aproximarmos, entendemos o motivo! Era um tamanduá mirim (Tamandua tetradactyla)!

Ficamos alguns longos segundos observando aquele lindo animal caminhando desajeitadamente pelo asfalto. Eu, particularmente, não acreditei muito no que via, e perguntei “é isso mesmo? é um tamanduá?”. Eu nunca tinha visto um, nem em Jardins Zoológicos. Eu imaginava que era um pouco maior, não sei se era adulto ou meio filhotão ainda. Mas era lindo, isso posso afirmar.

No primeiro momento, uma alegria súbita por encarar um animal tão lindo, por saber que ele “ainda existe” e tão perto de nós. Depois da euforia, já retomando o caminho de casa fomos nos dando conta que, na verdade, ver um tamanduá mirim, no meio da rua não é bom… Primeiro por ter uma grande chance dele sofrer algum acidente (e causar um, claro) de carro. Por outro lado, aqui na cidade há muitos cães soltos, ele é, assim, uma presa razoavelmente fácil. Por fim, se ele está na rua, passeando, entre outros motivos, pode ser por não haver mais espaço, alimento, enfim, condições de sustentá-lo onde ele estava antes (nas matas ao redor da cidade).

De qualquer modo, parece-me trágico o destino do nosso estimado tamanduá mirim. Embora ainda eufórica por ter, finalmente, me deparado com este simpático animal – era um dos grandes anseios desde que vim morar para os lados do Cerrado – não posso deixar de pensar que isto, ao mesmo tempo, não é um bom sinal…

P.S.: a foto é de autoria de Luiz Renato Blumlein Vieira, e pode ser encontrada neste link

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

2010: Mais dengue para o Brasil…

Novamente neste ano, vemos estampadas as notícias dos assustadores números da dengue no país. Como, pelo menos por enquanto, não temos nenhum outra enfermidade que dê mais audiência acontecendo em outros países ou mesmo no Sul e Sudeste, temos mais atenção para esta enfadonha doença que, ano após ano, vem ganhando espaço – ou pessoas – no Brasil.

Em especial no Centro Oeste, que é onde moro, os números não são nada agradáveis. No Mato Grosso, registrou-se um aumento de 804% de casos confirmados, em relação ao mesmo período de 2009. Para ser exata, conforme noticiado ontem (mais informações aqui), 15.362 casos, sendo que 387 graves e 17 mortes (8 confirmadas e 9 em investigação). Em 2009 foram registrados no estado 60 mil casos de dengue, até agora, em 50 dias, alcançamos a marca de 25% deste número.contra dengue

O que realmente me surpreendeu é que agora (antes tarde do que nunca, diga-se de passagem) a página do Ministério da Saúde tem vários locais com links que nos direcionam ao site exclusivo da doença, com informações razoavelmente atualizadas e uma rica quantidade de textos explicativos e material de campanha, com banners, propagandas e muito mais. Em 2009, o que havia de mais recente eram dados de 2007, com o Brasil vivendo uma forte luta contra a dengue, em especial nos estados de Mato Grosso e Bahia. Mas, claro, a gripe A ganhou mais destaque, com atualizações diárias no site do Min. da Saúde, naquela época. Não que fosse desnecessário, ou mesmo exagerado. O que me incomodava era a completa falta de registros oficiais, publicados sobre a dengue em um país, mesmo apresentando uma incidência absurda.

A cada notícia da dengue, na televisão, as precauções são repassadas, como se fosse a primeira vez. Aqui no Mato Grosso, a propaganda da Secretaria da Saúde passa várias vezes ao dia, há alguns anos. Independente disso, os números crescem e os agentes que visitam as casas seguem achando desleixo e descaso – público e privado. Na minha residência foram três visitas, se não me engano. Ainda que não encontrem nada, eles sempre alertam dos cuidados necessários… Mesmo com a ação pública (pois ela, surpreendentemente, as vezes se faz presente) atenta, facilitando o acesso às informações, seguimos com os malditos números crescendo…

Resta esperar que as campanhas funcionem, que as escolas atentem-se à problemática, que a população acorde para as soluções… Resta também, torcer para que doenças ocasionais, mesmo que necessitem atenção, não ofusquem o absolutamente imprescindível trabalho intensivo contra a dengue no país (mesmo que afete, “somente” o Centro Oeste e Norte, e isso dê tão pouca audiência para os jornais televisivos…).

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ideias soltas ao vento…

Hoje/ontem (ainda não dormi, então fico confusa com estes detalhes temporais) li um artigo do pedagogo Jorge Larrosa, intitulado O ensaio e a escrita acadêmica, que ele escreve a partir de Adorno, especificamente um texto chamado O ensaio como forma.

Larrosa, brilhantemente, nos leva aos meandros da pesquisa e escrita acadêmica no texto, nos deixando, inicialmente, perplexos por dizer em bom tom o que muitos pensam sobre as produções acadêmicas e, também, por deixar claro o quanto nos encaixamos em várias críticas traçadas por ele.

Neste texto, Larrosa critica as fronteiras acadêmicas (meu trabalho é em Educação? Qual o motivo, então, de ler Filosofia? E Antropologia? E Química? E qualquer-outra-coisa-que-me-chame-a-atenção?), assolando as certezas afirma, sobre o ensaio e as fronteiras: O que o ensaio faz é colocar as fronteiras em questão. E as fronteiras, como se sabe, são gigantescos mecanismos de exclusão. No instigante texto que segue à frase, o autor continua dando grandes sopapos na soberba acadêmica, apontando os chavões que acompanham a arrogância inerte, muitas vezes produtiva, mas sem sentido, qualidade, vontade ou paixão.

No momento que vivemos, em que todos nos exigem produção – toneladas delas – este texto é um alívio para quem ainda concorda que as ações devem ser pensadas e executadas com alegria, devem fazer parte de quem sou e como ajo no mundo. Ainda citando Larrosa, nesta crítica visceral: O espaço acadêmico esqueceu a lentidão da leitura, a delicadeza da leitura, essa forma de tratar o texto como uma força que nos leva além de nós mesmos, além do que o texto diz, do que o texto pensa ou do que o texto sabe (…) a escrita acadêmica é alérgica ao riso, à subjetividade e à paixão.

Passado (ou aquietado) o assombramento da escrita, Larrosa nos leva à paixão pela pesquisa - não daquela tradicionalmente vista nos corredores das universidades, mas àquele ímpeto inicial, àquelas vontades homéricas, constantemente contidas, pelos padrões, normas, moldes do tradicional.

Em seus escritos (neste artigo e em outros), o autor dificilmente deixa incólume seu leitor e, falando especificamente de mim como leitora, sempre deixa rastros em meus pensamentos e me impele (quase compulsivamente) a escrever. Não necessariamente sobre o que trata seu texto, mas o que me move a seguir pesquisadora, professora universitária formadora de professores de ciências e biologia, pensadora da vida (a minha e a dos outros, a biológica, a mundana, a cotidiana, vidas culturais, viscerais...), em suma, uma vivente com (e de) palavras.

Ideias jogadas ao vento, depois de uma longa noite lendo e escrevendo… A vontade de compartilhar a alegria de achar as primeiras palavras de um árduo (mas apaixonado e prazeroso) trabalho que tenho pela frente com possíveis leitores me obriga a escrever mais um pouco e declarar que ler me leva a pensar e a escrever, de outras formas… O risco é não ser compreendida, sempre. Até o dia da avaliação chegar, o que resta é escrever mais e mostrar que não há estudo interessante sem pesquisador(a) encantado(a), não há palavras fora do sentido, não há humanidade em pesquisas imparciais. E que tudo o que quero fazer, ainda é pouco (ou o pulso ainda pulsa).

Para se encantar também:

Larrosa, Jorge. O ensaio e a escrita acadêmica. Revista Educação & Realidade, Porto Alegre, vol.28, n.2, 2003. p.101-115.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Para todas as coisas: Dicionário (parte 1)

Semana passada foram publicados os novos números do Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), apontando queda de 9% para 7%, de 2007 para 2009 em nosso país.

Como eu não tinha muita ideia do que é, afinal, analfabetismo (ou alfabetismo) funcional, fui atrás para entender melhor. Encontrei as definições no site do INAF, e achei bem interessante, pois são conceitos que muitas vezes escutamos em reportagens e/ou notícias, bem como falamos, sem entender direito o que querem dizer. O INAF classifica a população brasileira de acordo com suas habilidades em leitura/escrita (letramento) e matemática (numeramento). No site constam as classificações que seguem:

Analfabetos funcionais
Analfabetismo -
Corresponde à condição dos que não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases ainda que uma parcela destes consiga ler números familiares (números de telefone, preços etc.).
Alfabetismo rudimentar - Corresponde à capacidade de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares (como um anúncio ou pequena carta), ler e escrever números usuais e realizar operações simples, como manusear dinheiro para o pagamento de pequenas quantias ou fazer medidas de comprimento usando a fita métrica.

Alfabetizados funcionalmente
Alfabetismo básico -
As pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, pois já lêem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências, lêem números na casa dos milhões, resolvem problemas envolvendo uma seqüência simples de operações e têm noção de proporcionalidade. Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações.
Alfabetismo pleno - Classificadas neste nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar elementos usuais da sociedade letrada: lêem textos mais longos, relacionando suas partes, comparam e interpretam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Quanto à matemática, resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas de dupla entrada mapas e gráficos.

Além da queda já mencionada no início do post, o analfabetismo rudimentar vem apresentando queda, aumentando, portanto, o que o INAF chama de alfabetismo básico. O alfabetismo pleno não tem se alterado significativamente.

O que assusta um pouco é ver os dados em relação às diferentes escolaridades. No Ensino Superior, temos cerca de 1% de analfabetos funcionais (com analfabetismo rudimentar) e 31% de alfabetizados no nível básico. Se isto já é impressionante, ficamos tristes ao ver que ao finalizar as Séries Finais do Ensino Fundamental permanecem 10% de analfabetos absolutos e 44% de analfabetos rudimentares, em uma população de 15 a 64 anos.

A pergunta que fica (para mim, ao menos), é como modificar este cenário? Certamente não existem fórmulas mágicas para isso, fora as respostas clássicas de estímulo à leitura (que grande parte das escolas ainda não sabe como também), parece-me comum o estímulo e o hábito iniciarem em casa, com os pais. Mas como estimular a leitura em casa, quando grande parte dos pais também é analfabeta (ou quase)?

Perguntas que vão se acumulando sem muitas perspectivas de respostas… (suspiro)

Para todas as coisas: dicionário

Para que fiquem prontas: paciência

(Nando Reis, Diariamente)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Livro: Parte 2

imagePara possíveis interessados, já está no site da EDUFAL o livro Escritos Metodológicos: possibilidades na pesquisa contemporânea em Educação, que eu citei alguns posts atrás (divulgado aqui).

Quer saber mais? Clique aqui!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

VIII Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología

Embora repetido do outro blog, sempre é bom divulgar eventos interessantes… Então, lá vai:

Recebi hoje a notícia de um evento que tem tudo para ser interessantíssimo… Além do tema ser de uma relevância ímpar para os Estudos da Ciência, é em Buenos Aires! O que sempre é um prazer reviver, reconhecer, reencontrar…

Abaixo as informações do evento:

Datas: de 16 a 19 de julho de 2010]

Tema do Evento: Ciência e Tecnologia para a Inclusão social na América Latina

Inscrição de Resumos até 27 de fevereiro de 2010 (tem tempo!!!), nos idiomas Português, Inglês, Espanhol e Francês.

Os resumos aceitos poderão enviar o trabalho completo até 15 de junho de 2010.

Temas para submissão de trabalhos:

1.Desafíos e historia de las políticas de ciencia y tecnología en los paises de Iberoamérica
2.Instituciones, disciplinas y campos de la ciencia y la tecnología
3.Tecnología, Innovación y Sociedad
4.Procesos de producción y uso del conocimiento científico y tecnológico
5.Participación de los públicos, comunicación y democratización
6.Los riesgos de la ciencia y la tecnología
7.Debates teóricos y metodológicos en el estudio social de la ciencia y la tecnología
8.Dimensiones internacionales de la ciencia y la tecnología
9.Educación CTS y Educación Superior
10.Las tecnociencias emergentes

Mais informações no site do evento e na primeira convocatória para submissão do trabalho.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

Na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, nada mais oportuno para, de novo, lembrar quintana5das palavras de nosso estimado poeta Mário Quintana que sempre me fazem pensar na Ciência:

 

 

Das indagações

A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas

;-)

Quintana, Mário. Caderno H. São Paulo: Globo, 2003, p.54.

Foto retirada do site: http://br.geocities.com/marlidf/webquest/recursos.htm

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Lançamento de Livro

No dia 31 de outubro será lançado, pela Editora UFAL, o livro Bienal do Livro AlagoasEscritos Metodológicos:   possibilidades na pesquisa contemporânea em educação, na IV Bienal Internacional do Livro de Alagoas. O evento acontecerá entre os dias 30 e 8 de novembro, no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, MACEIÓ/AL.

Autores:

Taís Ferreira (organizadora)
Shaula Maíra Vicentini Sampaio (organizadora)
Maria Lúcia Castagna Wortmann
Karla Saraiva
Mirtes Lia Pereira Barbosa
Rodrigo Saballa de Carvalho
Ana de Medeiros Arnt (Sim, eu!)
Anelise Scheuer Rabuske
Fátima Hartmann

Iara Tatiana Bonin

George Saliba Manske

O livro organizado com muito empenho pelas minhas colegas de mestrado Taís Ferreira e Shaula Sampaio! E é também motivo de alegria o prefácio ser escrito pela Professora Maria Lúcia Castagna Wortmann, que (penso que falo por todos os colegas) foi uma das professoras mais importantes do Programa de Pós-Graduação em Educação (FACED/UFRGS) para todos nós, por nos apresentar os caminhos da pesquisa e das discussões no campo dos Estudos Culturais! (mas sem perder a ternura jamais!)

Espero que agrade, a quem interessar possa… Em breve em uma livraria perto de vocês!!!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

As velhas ideias sobre as Novas Tecnologias…

As novas e velhas tecnologias continuam sendo discutidas e questionadas em âmbito escolar… Muitas escolas e professores seguem posicionando-se como vítimas de um mundo mais atraente, que torna os alunos desinteressados (de suas ma-ra-vi-lho-sas) aulas! Olhe só!

Telejogo - ConsoleNo tempo em que eu estava na escola já havia bastantes atrações fora da escola… E olha que o video-game que eu tinha era preto e branco na época!!! (De vez em quando essas coisas me denunciam…). Lembro-me bem quando tELEJOGO iieu e meu irmão ganhamos o Telejogo, ele vinha com três jogos – daqueles de palitinhos – que com imaginação fértil conseguíamos supor que eram futebol, tênis e o outro eu não lembro). Pois é, o telejogo já era atração o suficiente quando éramos crianças – meu irmão e eu. Além disso, claro, tinham as brincadeiras de carrinho, GI-Joe (sim, eu brincava de comandos em ação…), de pegar, de esconder, a bicicleta e, claro, o Lalo – nosso cocker-lata de plantão, sempre a postos para alguma brincadeira. Parece-me realmente que a escola era algo de segundo plano, nesta idade.

Hoje, como professora de professores não posso ficar falando estas coisas por aí, pega mal… (Ops!). Mas realmente intriga-me esta ideia de que a escola é refém de um mundo mais interessante. Primeiramente por a escola fazer (a princípio) parte deste mundo, segundo por poucos se interrogarem sobre se o que estão ensinando para estas crianças e adolescentes é realmente tão interessante e necessário assim moore.books (hmm, agora serei apedrejada: “mas e o CONTEÚDO!!! Temos que cumprir todo o CONTEÚDO!!!” Certo, será? Quem mesmo é responsável pelo estabelecimento do conteúdo? Ah, sim! A escola e o corpo docente… “Quer dizer que o que trabalhamos na escola é desnecessário????” Ora, se o aluno não aprende, me parece que sim…); enfim, voltando… Sigo questionando, em relação ao conteúdo, aos interesses, às estratégias didáticas, e todas as coisas mais que fazem parte da rotina escolar: qual é o nosso compromisso? Ou com o quê (ou com quem) é nosso compromisso? As vezes essa resposta aproxima-se mais do conteúdo do que do aluno.

François Dubet, sociólogo, discute na entrevista “Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor”, algo que parece óbvio, mas não é – principalmente se entrarmos em qualquer sala de aula nos dias atuais: o aluno não gosta de ser aluno e não está disposto a tornar-se aluno sem luta! A escola é o preço que tem a pagar para viver com seus amigos (feições de espanto!). Por outro lado, o sociólogo aponta também as dificuldades de um trabalho que é – como alguns gostam de chamar – o eterno retorno, aquela cena conhecida, todas as aulas devemos recomeçar do zero, seguir uma rotina estafante e chata: chamada, pede silêncio, conteúdo, manda devolver o estojo roubado, exercício, mais silêncio, dúvidas? já falei, devolve o estojo do colega! (e não é? as vezes em pleno terceiro ano, rouba estojo, pega borracha, joga papel… Por menos do que dez reais a hora, em alguns Estados e escolas).

Tenho um colega que costuma dizer que não gosta muito de dar aulas, por isso inventa várias coisas diferentes para se divertir como professor. A ideia é mais ou menos essa… Se é tão fadigante e insuportável, qual mesmo é o motivo de nos mantermos ali? O que impressiona é realmente esse movimento de continuar na rotina, infelizes e frustrados (generalizações cruéis, mas enfim), lamentando-se de um mundo atraente – sim, até parece que se o mundo fosse sem graça, teríamos aulas legais, tsc, tsc…

Apenas para mostrar como este mundo atraente pode entrar na sala de aula, usando as ferramentas (que são as vilãs que roubam a atenção e interesse de nossos alunos), dois aliados bem legais. O primeiro é o bom e “velho” youtube, esse mesmo, que os alunos sabem usar muito bem e colocam vários vídeos, alguns de gostos bem duvidosos…

A Ciência Hoje está com cerca de 50 vídeos no youtube (vocês podem acessá-los clicando AQUI), alguns educativos, outros sobre a campanha “A Ciência pode ajudar”, outros sobre temas e curiosidades científicas. Eu, particularmente gostei muito deste abaixo (em homenagem ao meu amigo Diogo… Sorry Diogo, não achei nenhum em que os cupins “ganham”, rsrsrs)

O outro site, que eu também adoro (muitíssimo!!!) chama-se ARKIVE, e tem informações imagede vários seres vivos – grande parte britânicos, é verdade – mas muitos de nossos biomas também.  Grande parte dos vídeos são trechos de documentários da BBC, da Discovery e da National Geografic, e possuem uma qualidade excelente e estão disponíveis para download!

imageClaro que eu também tenho os meus preferidos! Em especial, nos links (tem que clicar na gravura, a esperta aqui não conseguiu colocar o vídeo aqui direto…sorry). Neste site, além de vídeos sensacionais, como estes dois que apresentei aqui, também há textos, imagens e uma série de outras informações, em inglês, claro, mas nada impossível de ser entendido.

Enfim, algumas dicas de bons usos dessas tais novas tecnologias, vídeos curtos (nenhum com mais do que 5 minutos) podem ilustrar a aula e torná-la um pouco mais interativa…

 

obs1: foto1 do Telejogo retirada do site: http://www.nowloading.com.br/wp-content/gallery/round-36/Telejogo%20-%20Console.jpg;

Obs2: Foto2: http://2.bp.blogspot.com/_i0pB1RSkr3I/SOZFlLttEnI/AAAAAAAAATo/W9Noo5Hnk-s/s1600-h/tELEJOGO+ii.bmp

Obs3: A foto dos livros eu não sei o site que retirei… Assim que achar o link, coloco os créditos.

sábado, 26 de setembro de 2009

Sobre a tão falada inclusão…

Mesmo correndo o risco de ser criticada e de que alguém não goste do que aqui esteja escrito, resolvi (e quem me conhece sabe que seria impossível outra decisão) falar brevemente sobre a questão da inclusão, sem qualquer compromisso de grandes verdades e grandes-qualquer-coisa-que-se-espere-de-quem-decide-falar-sobre-isso.

Nesta semana estava vendo o jornal local, aqui do Mato Grosso, librasque falava de um curso de LIBRAS para qualquer interessado, embora seja claramente destinado a professores da Escola Básica, pelo que indicou a reportagem.  O curso de Libras é uma promoção da Secretaria Municipal de Educação de Várzea Grande (SEMEC) e da Secretaria Estadual de Educação do Mato Grosso (SEDUC).

O que me chamou atenção na reportagem, na verdade, foram as entrevistas com crianças surdas e não-surdas que estudavam juntas, em uma escola que contava com intérpretes. As crianças diziam estar contentes pela oportunidade de conviver com esta diferença e aprender com ela. Ao mesmo tempo, as crianças não-surdas também contavam como aprendiam com seus colegas surdos, em especial a falar a linguagem de sinais, o que possibilitava a comunicação em sala, entre todos os alunos. A turma que participou da reportagem devia estar na faixa dos 10 anos de idade.

Sempre que na universidade o tema da inclusão vem a tona, grande parte dos comentários é de muita insegurança em relação à diferença. Eu particularmente nunca tive alunos surdos, ou com qualquer outra ‘necessidade especial’. Já fui colega de duas pessoas surdas, durante o Mestrado e agora no Doutorado e, também, já orientei uma estagiária que teve quatro alunos surdos.

A minha maior dificuldade com meus colegas da pós-graduação é que sou demasiadamente curiosa e distraída… É claro que ficava tentando entender a comunicação entre o intérprete e meus colegas, mais do que prestando atenção na aula!

Em relação a minha aluna, o problema maior foi de comunicação com seus alunos. A intérprete nem sempre entendia do que a estagiária estava falando – não conhecia, nem compreendia, por exemplo, os termos específicos da Biologia – isso acabou dificultando o trabalho de minha estagiária, pois, além de tudo, ela demorou para perceber que estes alunos estavam recebendo informações diferentes do que aquelas trabalhadas por ela.

Em ambos os casos, outra questão se estabeleceu, a comunicação, via de regra, é com um intérprete. Ao falarem em sala de aula – para perguntar algo, ou exporem suas ideias – direcionavam o corpo, os olhares ao/à seu/sua intérprete, que nos traduz o que está sendo dito pelos sinais. A estranheza está em não termos um contato visual com quem está falando, supostamente, conosco.

A estagiária que orientei teve grande dificuldade para lidar com essa forma de comunicar-se, eu, tampouco, consegui auxiliá-la nesse aspecto, pois a situação também era nova para mim.

Sempre que os estudantes da licenciatura falam sobre o tema, surpreende-me a dificuldade em aceitar que nós tenhamos alunos com tais diferenças em sala de aula. Não raras vezes escutei: “não seria melhor que eles estudassem em escolas especiais e aprendessem a viver com a sociedade?”; “mas se dermos aula assim, não faremos nossos alunos de cobaia, já que nunca aprendemos a lidar com essas diferentes formas de aprender?”

Quanto a primeira pergunta, julgo que a própria reportagem a responde: como vamos ensinar um grupo (nomeado como “eles”, sempre marcando a diferença a “nós”, os “normais”, a “regra”, aqueles que podem avaliar sobre qual a melhor saída, juntarmo-nos a “eles” ou deixar cada um no seu canto, aprendendo a viver juntos em sociedades que tem escolas separadas…) a viver na sociedade, se não estamos habituados a vê-los na mesma, vivendo e atuando ‘como qualquer um’? As crianças da reportagem falam tudo em poucas palavras: aprendem a conviver e a se comunicar com pessoas que falam e se comunicam de outra forma, e tomam aquilo como cotidiano e tranquilo em suas vidas. Será que a nossa (me incluindo nisso) dificuldade em lidar com essa diferença não vem exatamente da falta de convivência com ela? Ora, me parece claro que esta separação em ‘escolas especiais’ apartava populações ditas, nomeadas, ‘normais’, dos ‘outros’ – os surdos, cegos, cadeirantes, e qualquer outra característica classificada como deficiência. Termo esse (deficiência) também que remete a algo faltante em relação a um padrão, quando não nomeado como deficiente, chamado de portador de necessidades especiais (e tem alguém que não tem nenhuma necessidade particular? Seremos todos – os normais – dotados de brilhantes características que não precisam de atenção particular nenhuma? Enfim, questões que sempre me ocorrem ao falarmos de algo especial).

Por outro lado, a pergunta de meus alunos (sobre tratarmos os alunos – os deficientes, ou portadores de necessidades especiais, ou qualquer outro nome dado a eles – como cobaias) remete a ideia de que somos, de fato, formados para tratar com a população ‘normal’, e que após um curso de graduação estaremos prontos para lidar com qualquer tipo de criança ‘normal’, mas não com as outras. Sim! A graduação deve nos formar para lidar com a Educação Básica, com o cotidiano da escola, com situações rotineiras. Talvez a pergunta devesse ser: não deveria ser comum, rotineiro, cotidiano, a convivência com a diferença? Ou também: sendo este um período transitório, em que estamos iniciando um processo de inclusão, percebendo como se dá esse processo, entendendo como as relações entre as crianças e estas com os professores se estabelecem, não é de se esperar um momento de incerteza, de inseguranças?

Ainda nesta linha de perguntas, existe alguma certeza em relação a Educação e ao ‘modo certo de agir’? Quando vejo as críticas sobre as dificuldades e ‘as coisas que não dão certo’ na prática, e na teoria são lindas, sempre vislumbro as críticas vindo de pessoas que possuem soluções mágicas para um cenário irreal, com pessoas delineadas no papel com perfeição, mas que não existem no cotidiano de uma instituição de ensino.

Em suma, post longo, sem muitas conclusões (e quem precisa delas?), para variar. De qualquer modo, voltando à reportagem citada inicialmente, e aos cursos oferecidos pelas Secretarias de Educação, parecem ser um modo de minimizar as diferenças em sala de aula, bem como um jeito de nós – professores – consigamos nos comunicar melhor com nossos alunos, sem a necessidade de intérpretes. Simultaneamente a isso, na minha visão, mostra nosso interesse e respeito à diferença, e a possibilidade de aceitá-la e de conviver com ela!