sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Piso salarial

Só para constar... Foi uma grande e triste derrota no STF, não de uma classe, mas do país...
O piso salarial de 950,00 reais foi aprovado, sim, mas podendo neste valor já estar contabilizadas as gratificações e plano de carreira! Isto quer dizer que o profissional de ensino médio (magistério, por exemplo) e o profissional de ensino superior podem seguir ganhando a mesma coisa, assim com aqueles que investem em uma pós-graduação (seja que modalidade for, especialização, mestrado, doutorado...) . Desse modo, não há nenhum incentivo para que a classe docente siga estudando, se aperfeiçoe.
Para completar, não se legitimou o aumento do tempo de atividade (de 25% para 33%). O que na prática faria muita diferença para estudar, planejar e lidar com o montante de trabalhos provenientes do cotidiano escolar...

Realmente, continua-se pensando no professor como aquele que trabalha quando está na sala de aula, como se não houvesse necessidade de preparo daquele momento, e como uma classe que não precisa de incentivos financeiros, basta o conhecimento. Tal como descrevem Julia Varela e Fernando Alvarez-Uria, em seu texto Maquinaria escolar, nos séculos XVIII e XIX, quando se possibilita uma ascensão social desses de profissionais, só pelo saber, não pelo dinheiro, mantendo-se esse grupo controlado e desinteressado (esse grupo que trabalha com a educação pública, claro... Os docentes dos filhos da aristocracia - ainda que não ganhem mundos e fundos - conseguem alcançar outros padrões financeiros). A educação pública, da massa, essa não precisa de pensadores motivados, querendo levar novidades, com sede de conhecimentos e com tempo para pensar novas e boas práticas que levem a massa ao conhecimento...

Sim, é uma perda da população, não só dos professores.

P.S.: não é definitivo o parecer... esperemos os próximos capítulos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Notícias que (não) surpreendem...

Hoje entrei no site de Educação do Uol - que visito regularmente em busca de notícias, novidades e curiosidades acerca do tema Educação no país - e chamaram-me a atenção duas notícias: "Blogs melhoram desempenho escolar, diz estudo" e "A cantora Malu Magalhães conta por que adora dicionários".

Fui ler a reportagem que discutia a relação entre o desempenho escolar e os blogs. Sucintamente, é um estudo interessantíssimo, que debate a importância dessa ferramenta eletrônica na produção de textos por jovens, além de ser um importante meio de comunicação e leitura. Segundo a autora do estudo, a partir dos blogs, os adolescentes conseguem formular melhor argumentos para discussões diversas - em função de terem acesso a diferentes pontos de vista, a partir da leitura de vários blogs. Em relação à escrita, o blog mostrou-se também um instrumento de aprendizado importante por não estar submetido à avaliação da professora somente, mas de outros leitores.

A segunda notícia é em formato de áudio, com alguns comentários de Malu Magalhães, a adolescente de 16 anos que virou fenômeno musical ao colocar suas músicas no MySpace. As falas da música e compositora referem-se a alguns de seus passatempos favoritos: conhecer palavras com dicionários etimológicos, de sinônimos, dentre outros, bem como visitar sebos (e, claro comprar livros). Ela cita dois autores: Drummond e Vinícius.

E que relevância tem tudo isso?

Fiquei pensando (com meus botões...) nisso e nas questões que discutimos continuamente nos cursos de licenciatura, tais como: 1. existem diferentes espaços de aprendizagem; 2. os espaços de aprendizagem que não a escola aparecem, continuamente, como mais atrativos.

Ao falar dos blogs, a pesquisadora comenta como esse é um local importante nos dias de hoje, de subjetivação, de trocas, de leituras, etc. E que ao desenvolver este trabalho os adolescentes (e isso não me surpreende) animaram-se muito mais com o ato de ler do que com outras atividades tradicionais realizadas na escola (e na disciplina de literatura e português). Conjuntamente com isso, a pesquisadora apresenta o argumento de como a escola não vê esse tipo de atividade como aprendizagem, a internet é percebida como espaço de jogos e bricadeiras, escrita errada - milhas e milhas distante das normas cultas.

Nas falas da Malu Magalhães vemos, por outro lado, uma jovem interessada em etimologia e leituras tidas como 'legitimas', válidas como literatura. Será que isso decorreu de sua vivência na escola? Talvez seu interesse pela área artística (não sendo relevante - ao menos para esta discussão -  se ela é boa compositora ou não) faça com que ela busque determinados instrumentos de aprendizagem, conhecimento de novas palavras, rimas, significados...

Ao ver essas notícias fiquei pensando se alguém se surpreende pelo fato de a escola não ter sido mencionada por Malu Magalhães - como lugar de aprender palavras - e ao ter sido mencionada pela professora/pesquisadora é no sentido de dizer o quanto o mundo e as vivências desses jovens (ainda) encontram-se fora da escola. O que vivem e pensam pouco (ou nada) se relaciona com o que estamos dispostos a falar dentro daqueles muros. Agora olhe que interessante, duas reportagens que apresentam jovens que gostam de ler, de conhecer palavras em um tempo que professores e adultos em geral passam balbuciando frases nostálgicas de que naquele tempo - seja ele qual for - é que a escola era boa, pois fazia aprender a ler e pensar (será?), um tempo em que os adolescentes são tomados como alienados, ignorantes e desinteressados por tudo vinculado ao saber...

Não sei... Ainda não terminei meus pensamentos de hoje em relação a essas coisas todas. Mas sempre tenho a sensação que esses jovens escapam aos interesses da escola e da sociedade... Ao olhar a instituição escolar vejo conhecimentos fragmentados, duros, pré-prontos fabricados em livros não funcionais, fora da vida do público a que se destina. Saem da escola muitas vezes sabendo responder uma prova, mas sem gosto pelo saber, pelo conhecer... E nos surpreendemos (infelizmente) quando vemos um/a adolescente que passa a se interessar pela leitura (de blogs ou de Drummond) e, mais do que isso, pensa sobre ela!!!

Não me surpreende que essas (e outras) leituras agradem aos jovens adolescentes. Me deixa perplexa o fato de na escola o prazer da leitura ainda seja tomado como notícia...

P.S. Aliás, o que me deixa mais perplexa, fora toda essa verborréia de hoje, por não conseguir finalizar o texto - já antecipando pedido de desculpas para quem gosta da coluna citada a seguir - é que na mesma página em que são apresentados adolescentes que gostam de ler, a chamada de uma das colunas desse site seja "Saiba como fazer a melhor escolha para presentear no Natal" - !?!?!?!? Sinceramente... Ninguém merece.

sábado, 15 de novembro de 2008

Disciplina e escola: que sujeitos formar?

Fala

Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto...

Se você disser tudo o que quiser, então eu escuto...

Fala...

Se eu não entender, não vou responder, então eu escuto...

Eu só vou falar, na hora de falar, então eu escuto...

Fala...

(Fala, João Ricardo e Luli)[1]

Logo no início do mestrado, com as primeiras leituras que fiz desse livro, Vigiar e Punir (em especial o capítulo Corpos dóceis e Recursos para o bom adestramento), recordei-me deste poema, musicado pelo conjunto Secos e Molhados.

A meu ver, esta música pode ser pensada como um estudante falando sobre sua rotina na sala de aula. Uma rotina que o ensina a permanecer em silêncio, pela noção construída de que não há nada a ser dito, por sua pessoa. Só abre-se espaço para a palavra em poucos momentos, mas na totalidade, se escuta. Por outro lado, há alguém (um professor?) autorizado a falar, que diz tudo o que quiser, que faz as perguntas e autoriza (ou não) o outro a falar. Foucault trata isso como o poder disciplinar, que visa a um controle das ações do corpo dos sujeitos, tornando-os dóceis e úteis, nas palavras do autor: “forma-se uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe” (Foucault, 2001, p.119). Desse modo, tanto professor quanto aluno tem o corpo disciplinado, sabem seu papel dentro da sala de aula (falar, escutar, “ensinar” ou “aprender”), ambos estão sendo interpelados pelo conjunto de saberes e poderes que funcionam naquela instituição aumentando a produtividade – seja em relação à quantidade de conhecimentos a serem trabalhados ou ao modo como os estudantes devem se portar na sociedade.

Tal idéia, associada a esta música, leva-me também a um aforismo, escrito por Larrosa:

Para ler, o estudante dispõe de todos os livros. Alinhados, ordenados, valorados. Cada livro em seu lugar. E todos à mão, perfeitamente disponíveis, dispostos, à sua disposição. O estudante começou a estudar com a segurança de que os livros, convenientemente reproduzidos e transmitidos, cuidadosamente editados e anotados, estão ali em uma espécie de plenitude: a plenitude sem falha da cultura, a prova palpável de sua imensa generosidade. Mas logo sente uma vertigem. Houve um momento que também se sentiu feliz diante da presença firme e segura de todos esses livros. Também ele sentiu o que neles existe de prestígio, de segurança, de promessa. Também se deixou seduzir por esse inventário bem ordenado dos produtos da cultura, por todas essas certezas alinhadas. Mas um dia se sentiu sufocado. E sentiu que os livros, em sua generosidade, não lhe deixavam espaço. (LARROSA, 2003, P.51)

Larrosa, neste aforismo, traz outra dimensão da disciplina, não só o controle do corpo (da fala e dos gestos permitidos em um espaço determinado – a sala de aula), mas da ordem, da disciplina como organização para uma maior eficácia, como discute Foucault (2001, p.123)

a regra das localizações funcionais vai pouco a pouco, nas instituições disciplinares, codificar um espaço que a arquitetura deixava geralmente livre e pronto para vários usos. Lugares determinados se definem para satisfazer não só à necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também criar um espaço útil (grifos no original).

Embora o autor trate da organização e localizações em relação aos corpos (distribuição das pessoas em um espaço definido), isso também se refere aos espaços ocupados pelos corpos, e onde eles estão atuando – como os livros descritos por Larrosa – ou como diz Foucault, trata-se da célula, da quadrícula, os espaços funcionais para um corpo.

É interessante trazer isso nos dias de hoje, pois muito se contesta muito a questão da homogeneização[2] e da falta de individualidade nas escolas, mas simultaneamente a constante reclamação de indisciplina se faz presente. Assim, nos remetemos à questão: que aluno queremos? Que sujeito queremos formar/produzir para a sociedade? Quando nos colocamos como formadores de sujeitos, é impossível não nos tomarmos como disciplinadores – organizando espaços, tempos e corpos, controlando movimentos, a fim de torná-los mais eficazes, mais produtivos para a sociedade que vivemos. A questão que fica (e termino meu texto – que já está longo – com ela) é que se ainda queremos que essa formação/produção de sujeitos se dê através de processos de escolarização, temos que (re)tomar a responsabilidade para nós (professores), não culpabilizando pais, mídia e outras instâncias pelos modos como os sujeitos estão hoje na sociedade (indisciplinados, incivilizados, pouco produtivos e outros atributos que tanto ouvimos dos professores).

Bibliografia

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 25ª Ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987. Capítulo Os corpos dóceis, p. 117-142.

LARROSA, Jorge. Estudar=Estudiar. 1ª ed. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.


[1] Poema, musicada por Secos e Molhados.

[2] Que deve, sem dúvidas, ser discutido. Talvez pensando no sentido da relação, da distribuição e localização uniforme e correspondente uns em relação a outros, e não da igualdade - sem distinção entre uns e outros.

(Produzido para a disciplina "Desafios Contemporâneos: inclusão, disciplinamento e subjetivação", do Programa de Pós-Graduação em Educação -FACED/UFRGS)

domingo, 26 de outubro de 2008

Leitura: A viagem por conta própria

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra “ler” tem diferentes significados, sendo alguns deles: conhecer, através de exame mais ou menos extenso (o conteúdo de um texto); dedicar-se, entregar-se à leitura como hábito ou paixão; compreender, interpretar.

Interessante, não? A leitura é vista, nos dias de hoje, como algo monótono, chato e desinteressante. No entanto, ao olharmos as palavras a ela atribuídas somos levados a pensar não somente nas letras justapostas, mas ao conhecimento e, melhor ainda, à paixão. Paixão por conhecer, compreender, talvez... Ter como hábito a vontade de saber.

Pensando nessa perspectiva, o monótono, quem sabe, pode ser ficar no mundo, sem essa nova aventura que é a paixão que o conhecimento nos proporciona, os lugares que a compreensão nos leva! Desinteressante passa a ser o hábito de entrevar-se, ao contrário de entregar-se à paixão pelo saber...

E ao tomarmos o ato de ler como interpretação torna-se importante, também, ressaltar seu caráter individual – a nossa leitura do mundo, a visão das coisas que nos cercam, o nosso conhecimento construído a partir dos livros que lemos, as nossas memórias formadas com as palavras dos textos. E, talvez, o mais importante de tudo: os passeios possibilitados pelo conhecimento!

Quem sabe um dia, possamos desenvolver o que Mário Quintana nomeou como A arte de ler, ao descrever o leitor que mais o fascinava. Nas palavras do poeta (um dos meus prediletos): O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Nesse momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

E vocês, não

gostariam de arriscar?

(texto publicado na íntegra no site: http://www.diariodaserra.com.br/showtangara.asp?codigo=112943)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Arte & Ciência: Experiências e Inclusão

As escolas podem perfeitamente se tornar locais singulares, como mundos próprios nos quais cyborgs geracionalmente diferentes se encontram e trocam narrativas sobre suas viagens na tecno-realidade – desde que nós nos permitamos reimaginá-los e reconstruí-los de uma forma inteiramente nova em negociação com aqueles que um dia tomarão nosso lugar (Green & Bigum, 2001, p. 240).

Em um desses finais de semana, cheios de coisas atrasadas para fazer, eu estava procurando um livro leve e tranqüilo que não me levasse a pensar em trabalho e qualquer coisa relacionada às pesquisas, enfim... Algo para ler e descansar... Doce ilusão, claro. Deparei-me com um autor que aprecio e há muito não lia: Aldous Huxley. O livro, intitulado A Situação Humana, é uma compilação de uma série de conferências pronunciadas no ano de 1959 e publicadas posteriormente.

No primeiro capítulo, Educação Integrada, o autor defende a importância de um ensino não fragmentado e do diálogo entre áreas extremamente especializadas. Huxley discute como, para termos uma educação integrada, devemos ter pessoas que são pontifex (que ele traduz, do latim, como construtor de pontes) (Huxley, 1982).

Sem maiores delongas, me importa aqui aproximar dois textos – o Alienígenas em sala de Aula, de Green & Bigum e o já citado de Huxley – produzidos em épocas tão distantes...

Green & Bigum nos apresentam em seu artigo a discussão sobre a “nova” geração de alunos jovens e adolescentes e os impasses enfrentados pelos professores adultos que vivem em outro tempo, lastimando da falta de cultura e interesse do primeiro grupo. Sem focar no debate de “quem é, afinal, alienígena e/ou alienado” (afinal, depende de que lado estamos olhando – não só em relação a faixas etárias, mas grupos sociais: somos alienados/alienígenas em relação a quem? E a quê?), achei interessante o modo como termina o artigo, citado na epígrafe. Ao debater a escola como espaço em que pessoas de diferentes lugares/posições se encontram e trocam experiências eles pontuam como caminho a reinvenção, uma nova produção de sentidos sobre as experiências e conhecimentos de outros grupos sociais.

Huxley, em sua fala, vai traçar um caminho possível de diálogo entre ciência e arte, perguntando-se de que vale uma sem a outra. Se a ciência existe, mas ninguém entende, será que a arte não poderia ser: essa instância de produção de sentidos para outros grupos (não-cientistas)? O espaço de significados que une grande parte das pessoas, suas vivências cotidianas e uma teorização abstrata e aparentemente sem contextualização nenhuma? Não poderia ser a arte (o artista) um pontifex? O autor defende, a partir do livro Lyrical Ballads de William Wordsworth, escrito no final do século XVIII, que “as mais remotas redescobertas do químico, do botânico, do mineralogista, não são temas menos adequados ao poeta do que qualquer outro tema, desde que sejam assuntos interessantes para os seres humanos em geral e possam ser analisados na medida do que fazem ao homem como ‘ser que goza e sofre’ ”(Huxley, 1982, p.13). Continuando o argumento o autor defende, ironicamente, que o ensino (e o ensino da ciência, especificamente) atêm-se mais ao “ser que sofre” (e causa sofrimento) do que o “ser que goza” (e proporciona prazer).

Bem, a proximidade dos textos, penso eu, está exatamente nesse distanciamento colocado por Green & Bigum, entre duas gerações – que falam e pensam sobre o mundo de formas distintas, sem conseguir comunicar-se. O professor (nós) com um saber que consideramos válido, o científico, e algumas formas específicas de falar e escrever sobre esse conhecimento. Os estudantes, por outro lado, com manifestações culturais diversas, não afinadas com o que o grupo anterior gostaria, muito ligado à mídia e formas de expressão e escrita não legitimadas por nós, adultos.

Pois bem, nesse sentido, o convite de Huxley ecoa (para mim, em mim...): será que a arte, considerando-a como manifestação e visão de mundo, como interpretação, crítica, vivência e, talvez, alargando o conceito de arte como cultura, de um modo geral, não seria essa possibilidade de encontro e trocas de narrativas de que falam Green & Bigum? Um modo de negociação, reinvenção, na tentativa de não deslegitimar o outro, mas agregar, “reconstruí-los de uma forma totalmente nova” como defendem os autores?

Impressiona-me, de fato, que essa discussão pareça – com suas particularidades, claro – ser um retorno a preocupações que eram demonstradas no passado e foram guardadas em gavetas obscurecidas... As tecnologias mudam (mudaram), o olhar para o jovem mudou, mas ainda não conseguimos atrelar ao conhecimento científico-tecnológico significados de nossa vida rotineira. Em se tratando de inclusão e exclusão, estamos, talvez, deixando de fora a possibilidade de estudantes vivenciar, experimentar o conhecimento: de arte e de ciência; de sentimentos e de abstrações; de belezas e incertezas; de relações (produtivas) entre as gerações... Não seria essa uma cruel exclusão?

Referências bibliográficas

Green, Bill & Bigum, Chris. Alienígenas em sala de aula. In: Silva, Tomaz Tadeu (org.) Alienígenas em sala de aula: uma introdução aos Estudos Culturais em Educação. Petrópolis: Vozes, 2001. p.208-243.

Huxley, Aldous. A Situação Humana. Porto Alegre; Rio de Janeiro: Editora Globo, 1982.

(Produzido para a disciplina "Desafios Contemporâneos: inclusão, disciplinamento e subjetivação", do Programa de Pós-Graduação em Educação -FACED/UFRGS)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Diz quem foi que inventou o analfabeto
E ensinou o alfabeto ao professor

(Chico Buarque, Almanaque)

 

Narodowski, em seu texto "Adeus à infância (e a escola que a ensinava)" nos traz o questionamento da infância como produto da história, como fabricada nas redes sociais para questionar a função da escola nos dias de hoje.

Hoje, irei me deter na discussão acerca da escola e suas relações com a infância e sua produção. Narodowski (1998) defende, em seu artigo, que “a instituição escolar é o dispositivo que se constrói para encerrar a infância e a adolescência. Encerrá-la tanto do ponto de vista topológico ou corpóreo quanto do ponto de vista das categorias que a pedagogia elaborou para construí-la” (p.173). Seguindo no texto, o autor diz ainda que “a infância gera um campo de conhecimentos que a pedagogia constrói, mas, ao mesmo tempo, é um corpo – o corpo infantil, o corpo adolescente – depositário do agir específico da educação escolar” (id.).

Ao desenvolver a análise acerca das novas maneiras de se viver a infância e dos reflexos disso na instituição escolar, Narodowski discute como o conceito de “aluno” entra em crise, uma vez que a categoria “aluno” funcionava para um tipo de infância, diferente da que temos nos dias de hoje. O autor defende: “temos que nos colocar de novo a idéia de construir um saber no interior da escola”.

Ao ler este texto, fiquei interrogando-me: redefinir a infância, a escola e quem/como são os alunos não seria redefinir a nós mesmos?

No último parágrafo do texto, o autor debate que é possível pensar a escola e a infância não em termos de reforma, mas como um desafio.

Tenho questionado muito, a partir de meus estudos, minha prática como “professora de professores”, pensando em como prepará-los para atuar nesse mundo em que as instituições modernas estão em crise, como diz Narodowski. Constantemente sou interpelada pelas perguntas de meus estagiários, que insistem para que lhes dê respostas com soluções eternas, seguras e que, conseqüentemente, não possíveis de serem executadas com pessoas...

Nesse sentido, trago a música Almanaque, de Chico Buarque. Esse verso da epígrafe é, para mim, interessantíssimo, pois traz essa questão da construção dos sujeitos na sociedade: quem inventou o analfabeto e, por conseqüência, quem tornou o professor o sujeito de conhecimento (que reforça o analfabeto como tal). Nossa profissão (e mesmo a sociedade como um todo) parece ter esquecido que o aluno, como sujeito, é alguém construído, constituído dentro de uma lógica, a partir de uma instituição inventada, não natural em nossa sociedade... E assim, ao esquecermos que nosso aluno não 'nasce' aluno, também não nos damos conta que é nossa função, como professores - ou educadores -, ensinar a criança (ou o adulto, nos EJAs) a ocupar esse papel de "aluno" - ou "educando".

Continuo sem entender como, cotidianamente, os docentes têm se eximido dessa tarefa, grande parte das vezes pautados em uma lógica de que ensinar o sujeito a ser estudante é função dos pais, ou de outra instância social que não da escola - e dos sujeitos que atuam nesse sistema de ensino, em especial os docentes - e também fundamentando-se que tal ensinamento vincula-se a uma lógica de disciplina como repressão, falta de liberdade, censura... Disciplinamento e repressão não necessariamente são sinônimos, e esta idéia, levada ao extremo, é o que vem tornando cada vez mais difícil lidar com as individualidades escolares. O conceito de "Liberdade" transformou-se em "tudo vale, tudo pode", em nome da não-repressão!

Ora, adultos ocupem seus postos! Liberdade e baderna não são sinônimos, nem disciplina e autoritarismo! E quem não gostar de um pouco de civilidade, que atire a primeira pedra...

Referência:

Narodowski, Mariano. Adeus à infância (e a escola que a educava). In: SILVA, Luiz Heron, (org.). Porto Alegre: SMED, 1998. p.172-177.

domingo, 28 de setembro de 2008

Ser professor: possibilitar outros modos de olhar e agir na sociedade

Com o dia do professor se aproximando, tenho pensado no significado dessa profissão e sua importância na sociedade. E é para (e sobre) esses profissionais que me dirijo nessa postagem, que inaugura esse blog!

Escolher essa área de atuação, em nosso país, não é fácil. Ouvi de muitas pessoas, quando fiz essa opção, que não valia a pena. Entre os motivos destaco: o baixo salário, a falta de estrutura das escolas e o desinteresse por parte de alunos, pais e sociedade. Enfim, não se pode afirmar que ser professor é uma tarefa tranqüila (mas alguma é?)! No entanto, penso ser importante ressaltar o quanto aqueles que escolheram esse caminho têm o dever de valorizá-lo.

Ir a uma sala de aula e ensinar tem um sentido mais amplo do que apenas ler livros didáticos (tratado muitas vezes como o “manual prático do professor moderno”, ao invés de “mais um recurso” a ser utilizado), ou resumir os conteúdos da universidade. No dicionário Houaiss, professor é: aquele cuja profissão é dar aulas em escola, colégio ou universidade; docente, mestre; Indivíduo muito versado ou perito em (alguma coisa).

Somente observando esses significados, já teremos subsídios para uma importante discussão: a do professor como intelectual (que é muito versado). Isto é, alguém que é definido como conhecedor de uma área e que passa adiante esse saber.

Ao olharmos a etimologia (estudo da origem das palavras) da palavra professor, encontraremos: o que se dedica a, o que cultiva; manifestar-se; afirmar, assegurar, prometer, protestar, obrigar-se, confessar, mostrar, dar a conhecer, ensinar.

Nesse momento, defendo que ser professor é (ou deveria ser) um ato político, não no sentido partidário, mas como atuante na sociedade, como formadores dedicados de pessoas. Assim, ressalto a nossa importância como formadores que buscam (ou deveriam): assegurar conhecimento às pessoas e protestar contra o modo como o conhecimento (científico e popular) é tratado nos dias atuais.

Em consonância com essa idéia, podemos inferir sobre o significado da palavra “dar”, na expressão “dar aulas” ou “dar a conhecer”, novamente apoiando o argumento no dicionário: oferecer como presente ou brinde a. Desse modo, ser professor mostra-se como mais do que ensinar, é um ato de compartilhar, oferecer (um presente).  Mas... Ensinar (ou oferecer) o quê?

Eis aí, nesse debate, a função do professor como intelectual: alguém que, situado na sociedade, busca modos de ação nas problemáticas locais, qualificando o saber cultural com o saber científico – não desconsiderando o saber popular, mas partindo das práticas sociais em que está, relacionando a ciência com a nossa vida e não com conceitos abstratos e distantes de nossa realidade. Nesse sentido, o pedagogo espanhol Jorge Larrosa, no livro Nietsche e a Educação (Ed. Autêntica), afirma que ensinar: “não é transmitir um método, um caminho a seguir, um conjunto de regras práticas mais ou menos gerais e obrigatórias a todos”. Partindo desse pressuposto, mudo a minha pergunta “ensinar o quê?” – que remete a um conjunto de conceitos universais e desvinculados da realidade – para “como ensinar e possibilitar que as pessoas aprendam a agir e a pensar, a partir dos conhecimentos que temos a oferecer?”. Dessa forma, nos remetemos à questão da aprendizagem percebendo-a como algo que não existe fora da reflexão, ou seja, não existem modos de ensinar os estudantes sem que se interrogue sobre como aquilo que falamos na escola se relaciona com suas vidas. Não para mudar ou ditar regras, costumes e valores arraigados de nossa ciência e nossa sociedade, mas para que possamos oportunizar (e a valorização do docente encontra-se nesse ponto) novas maneiras de olhar e agir – consigo e com a sociedade.