domingo, 26 de outubro de 2008

Leitura: A viagem por conta própria

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra “ler” tem diferentes significados, sendo alguns deles: conhecer, através de exame mais ou menos extenso (o conteúdo de um texto); dedicar-se, entregar-se à leitura como hábito ou paixão; compreender, interpretar.

Interessante, não? A leitura é vista, nos dias de hoje, como algo monótono, chato e desinteressante. No entanto, ao olharmos as palavras a ela atribuídas somos levados a pensar não somente nas letras justapostas, mas ao conhecimento e, melhor ainda, à paixão. Paixão por conhecer, compreender, talvez... Ter como hábito a vontade de saber.

Pensando nessa perspectiva, o monótono, quem sabe, pode ser ficar no mundo, sem essa nova aventura que é a paixão que o conhecimento nos proporciona, os lugares que a compreensão nos leva! Desinteressante passa a ser o hábito de entrevar-se, ao contrário de entregar-se à paixão pelo saber...

E ao tomarmos o ato de ler como interpretação torna-se importante, também, ressaltar seu caráter individual – a nossa leitura do mundo, a visão das coisas que nos cercam, o nosso conhecimento construído a partir dos livros que lemos, as nossas memórias formadas com as palavras dos textos. E, talvez, o mais importante de tudo: os passeios possibilitados pelo conhecimento!

Quem sabe um dia, possamos desenvolver o que Mário Quintana nomeou como A arte de ler, ao descrever o leitor que mais o fascinava. Nas palavras do poeta (um dos meus prediletos): O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Nesse momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

E vocês, não

gostariam de arriscar?

(texto publicado na íntegra no site: http://www.diariodaserra.com.br/showtangara.asp?codigo=112943)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Arte & Ciência: Experiências e Inclusão

As escolas podem perfeitamente se tornar locais singulares, como mundos próprios nos quais cyborgs geracionalmente diferentes se encontram e trocam narrativas sobre suas viagens na tecno-realidade – desde que nós nos permitamos reimaginá-los e reconstruí-los de uma forma inteiramente nova em negociação com aqueles que um dia tomarão nosso lugar (Green & Bigum, 2001, p. 240).

Em um desses finais de semana, cheios de coisas atrasadas para fazer, eu estava procurando um livro leve e tranqüilo que não me levasse a pensar em trabalho e qualquer coisa relacionada às pesquisas, enfim... Algo para ler e descansar... Doce ilusão, claro. Deparei-me com um autor que aprecio e há muito não lia: Aldous Huxley. O livro, intitulado A Situação Humana, é uma compilação de uma série de conferências pronunciadas no ano de 1959 e publicadas posteriormente.

No primeiro capítulo, Educação Integrada, o autor defende a importância de um ensino não fragmentado e do diálogo entre áreas extremamente especializadas. Huxley discute como, para termos uma educação integrada, devemos ter pessoas que são pontifex (que ele traduz, do latim, como construtor de pontes) (Huxley, 1982).

Sem maiores delongas, me importa aqui aproximar dois textos – o Alienígenas em sala de Aula, de Green & Bigum e o já citado de Huxley – produzidos em épocas tão distantes...

Green & Bigum nos apresentam em seu artigo a discussão sobre a “nova” geração de alunos jovens e adolescentes e os impasses enfrentados pelos professores adultos que vivem em outro tempo, lastimando da falta de cultura e interesse do primeiro grupo. Sem focar no debate de “quem é, afinal, alienígena e/ou alienado” (afinal, depende de que lado estamos olhando – não só em relação a faixas etárias, mas grupos sociais: somos alienados/alienígenas em relação a quem? E a quê?), achei interessante o modo como termina o artigo, citado na epígrafe. Ao debater a escola como espaço em que pessoas de diferentes lugares/posições se encontram e trocam experiências eles pontuam como caminho a reinvenção, uma nova produção de sentidos sobre as experiências e conhecimentos de outros grupos sociais.

Huxley, em sua fala, vai traçar um caminho possível de diálogo entre ciência e arte, perguntando-se de que vale uma sem a outra. Se a ciência existe, mas ninguém entende, será que a arte não poderia ser: essa instância de produção de sentidos para outros grupos (não-cientistas)? O espaço de significados que une grande parte das pessoas, suas vivências cotidianas e uma teorização abstrata e aparentemente sem contextualização nenhuma? Não poderia ser a arte (o artista) um pontifex? O autor defende, a partir do livro Lyrical Ballads de William Wordsworth, escrito no final do século XVIII, que “as mais remotas redescobertas do químico, do botânico, do mineralogista, não são temas menos adequados ao poeta do que qualquer outro tema, desde que sejam assuntos interessantes para os seres humanos em geral e possam ser analisados na medida do que fazem ao homem como ‘ser que goza e sofre’ ”(Huxley, 1982, p.13). Continuando o argumento o autor defende, ironicamente, que o ensino (e o ensino da ciência, especificamente) atêm-se mais ao “ser que sofre” (e causa sofrimento) do que o “ser que goza” (e proporciona prazer).

Bem, a proximidade dos textos, penso eu, está exatamente nesse distanciamento colocado por Green & Bigum, entre duas gerações – que falam e pensam sobre o mundo de formas distintas, sem conseguir comunicar-se. O professor (nós) com um saber que consideramos válido, o científico, e algumas formas específicas de falar e escrever sobre esse conhecimento. Os estudantes, por outro lado, com manifestações culturais diversas, não afinadas com o que o grupo anterior gostaria, muito ligado à mídia e formas de expressão e escrita não legitimadas por nós, adultos.

Pois bem, nesse sentido, o convite de Huxley ecoa (para mim, em mim...): será que a arte, considerando-a como manifestação e visão de mundo, como interpretação, crítica, vivência e, talvez, alargando o conceito de arte como cultura, de um modo geral, não seria essa possibilidade de encontro e trocas de narrativas de que falam Green & Bigum? Um modo de negociação, reinvenção, na tentativa de não deslegitimar o outro, mas agregar, “reconstruí-los de uma forma totalmente nova” como defendem os autores?

Impressiona-me, de fato, que essa discussão pareça – com suas particularidades, claro – ser um retorno a preocupações que eram demonstradas no passado e foram guardadas em gavetas obscurecidas... As tecnologias mudam (mudaram), o olhar para o jovem mudou, mas ainda não conseguimos atrelar ao conhecimento científico-tecnológico significados de nossa vida rotineira. Em se tratando de inclusão e exclusão, estamos, talvez, deixando de fora a possibilidade de estudantes vivenciar, experimentar o conhecimento: de arte e de ciência; de sentimentos e de abstrações; de belezas e incertezas; de relações (produtivas) entre as gerações... Não seria essa uma cruel exclusão?

Referências bibliográficas

Green, Bill & Bigum, Chris. Alienígenas em sala de aula. In: Silva, Tomaz Tadeu (org.) Alienígenas em sala de aula: uma introdução aos Estudos Culturais em Educação. Petrópolis: Vozes, 2001. p.208-243.

Huxley, Aldous. A Situação Humana. Porto Alegre; Rio de Janeiro: Editora Globo, 1982.

(Produzido para a disciplina "Desafios Contemporâneos: inclusão, disciplinamento e subjetivação", do Programa de Pós-Graduação em Educação -FACED/UFRGS)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Diz quem foi que inventou o analfabeto
E ensinou o alfabeto ao professor

(Chico Buarque, Almanaque)

 

Narodowski, em seu texto "Adeus à infância (e a escola que a ensinava)" nos traz o questionamento da infância como produto da história, como fabricada nas redes sociais para questionar a função da escola nos dias de hoje.

Hoje, irei me deter na discussão acerca da escola e suas relações com a infância e sua produção. Narodowski (1998) defende, em seu artigo, que “a instituição escolar é o dispositivo que se constrói para encerrar a infância e a adolescência. Encerrá-la tanto do ponto de vista topológico ou corpóreo quanto do ponto de vista das categorias que a pedagogia elaborou para construí-la” (p.173). Seguindo no texto, o autor diz ainda que “a infância gera um campo de conhecimentos que a pedagogia constrói, mas, ao mesmo tempo, é um corpo – o corpo infantil, o corpo adolescente – depositário do agir específico da educação escolar” (id.).

Ao desenvolver a análise acerca das novas maneiras de se viver a infância e dos reflexos disso na instituição escolar, Narodowski discute como o conceito de “aluno” entra em crise, uma vez que a categoria “aluno” funcionava para um tipo de infância, diferente da que temos nos dias de hoje. O autor defende: “temos que nos colocar de novo a idéia de construir um saber no interior da escola”.

Ao ler este texto, fiquei interrogando-me: redefinir a infância, a escola e quem/como são os alunos não seria redefinir a nós mesmos?

No último parágrafo do texto, o autor debate que é possível pensar a escola e a infância não em termos de reforma, mas como um desafio.

Tenho questionado muito, a partir de meus estudos, minha prática como “professora de professores”, pensando em como prepará-los para atuar nesse mundo em que as instituições modernas estão em crise, como diz Narodowski. Constantemente sou interpelada pelas perguntas de meus estagiários, que insistem para que lhes dê respostas com soluções eternas, seguras e que, conseqüentemente, não possíveis de serem executadas com pessoas...

Nesse sentido, trago a música Almanaque, de Chico Buarque. Esse verso da epígrafe é, para mim, interessantíssimo, pois traz essa questão da construção dos sujeitos na sociedade: quem inventou o analfabeto e, por conseqüência, quem tornou o professor o sujeito de conhecimento (que reforça o analfabeto como tal). Nossa profissão (e mesmo a sociedade como um todo) parece ter esquecido que o aluno, como sujeito, é alguém construído, constituído dentro de uma lógica, a partir de uma instituição inventada, não natural em nossa sociedade... E assim, ao esquecermos que nosso aluno não 'nasce' aluno, também não nos damos conta que é nossa função, como professores - ou educadores -, ensinar a criança (ou o adulto, nos EJAs) a ocupar esse papel de "aluno" - ou "educando".

Continuo sem entender como, cotidianamente, os docentes têm se eximido dessa tarefa, grande parte das vezes pautados em uma lógica de que ensinar o sujeito a ser estudante é função dos pais, ou de outra instância social que não da escola - e dos sujeitos que atuam nesse sistema de ensino, em especial os docentes - e também fundamentando-se que tal ensinamento vincula-se a uma lógica de disciplina como repressão, falta de liberdade, censura... Disciplinamento e repressão não necessariamente são sinônimos, e esta idéia, levada ao extremo, é o que vem tornando cada vez mais difícil lidar com as individualidades escolares. O conceito de "Liberdade" transformou-se em "tudo vale, tudo pode", em nome da não-repressão!

Ora, adultos ocupem seus postos! Liberdade e baderna não são sinônimos, nem disciplina e autoritarismo! E quem não gostar de um pouco de civilidade, que atire a primeira pedra...

Referência:

Narodowski, Mariano. Adeus à infância (e a escola que a educava). In: SILVA, Luiz Heron, (org.). Porto Alegre: SMED, 1998. p.172-177.