terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ideias soltas ao vento…

Hoje/ontem (ainda não dormi, então fico confusa com estes detalhes temporais) li um artigo do pedagogo Jorge Larrosa, intitulado O ensaio e a escrita acadêmica, que ele escreve a partir de Adorno, especificamente um texto chamado O ensaio como forma.

Larrosa, brilhantemente, nos leva aos meandros da pesquisa e escrita acadêmica no texto, nos deixando, inicialmente, perplexos por dizer em bom tom o que muitos pensam sobre as produções acadêmicas e, também, por deixar claro o quanto nos encaixamos em várias críticas traçadas por ele.

Neste texto, Larrosa critica as fronteiras acadêmicas (meu trabalho é em Educação? Qual o motivo, então, de ler Filosofia? E Antropologia? E Química? E qualquer-outra-coisa-que-me-chame-a-atenção?), assolando as certezas afirma, sobre o ensaio e as fronteiras: O que o ensaio faz é colocar as fronteiras em questão. E as fronteiras, como se sabe, são gigantescos mecanismos de exclusão. No instigante texto que segue à frase, o autor continua dando grandes sopapos na soberba acadêmica, apontando os chavões que acompanham a arrogância inerte, muitas vezes produtiva, mas sem sentido, qualidade, vontade ou paixão.

No momento que vivemos, em que todos nos exigem produção – toneladas delas – este texto é um alívio para quem ainda concorda que as ações devem ser pensadas e executadas com alegria, devem fazer parte de quem sou e como ajo no mundo. Ainda citando Larrosa, nesta crítica visceral: O espaço acadêmico esqueceu a lentidão da leitura, a delicadeza da leitura, essa forma de tratar o texto como uma força que nos leva além de nós mesmos, além do que o texto diz, do que o texto pensa ou do que o texto sabe (…) a escrita acadêmica é alérgica ao riso, à subjetividade e à paixão.

Passado (ou aquietado) o assombramento da escrita, Larrosa nos leva à paixão pela pesquisa - não daquela tradicionalmente vista nos corredores das universidades, mas àquele ímpeto inicial, àquelas vontades homéricas, constantemente contidas, pelos padrões, normas, moldes do tradicional.

Em seus escritos (neste artigo e em outros), o autor dificilmente deixa incólume seu leitor e, falando especificamente de mim como leitora, sempre deixa rastros em meus pensamentos e me impele (quase compulsivamente) a escrever. Não necessariamente sobre o que trata seu texto, mas o que me move a seguir pesquisadora, professora universitária formadora de professores de ciências e biologia, pensadora da vida (a minha e a dos outros, a biológica, a mundana, a cotidiana, vidas culturais, viscerais...), em suma, uma vivente com (e de) palavras.

Ideias jogadas ao vento, depois de uma longa noite lendo e escrevendo… A vontade de compartilhar a alegria de achar as primeiras palavras de um árduo (mas apaixonado e prazeroso) trabalho que tenho pela frente com possíveis leitores me obriga a escrever mais um pouco e declarar que ler me leva a pensar e a escrever, de outras formas… O risco é não ser compreendida, sempre. Até o dia da avaliação chegar, o que resta é escrever mais e mostrar que não há estudo interessante sem pesquisador(a) encantado(a), não há palavras fora do sentido, não há humanidade em pesquisas imparciais. E que tudo o que quero fazer, ainda é pouco (ou o pulso ainda pulsa).

Para se encantar também:

Larrosa, Jorge. O ensaio e a escrita acadêmica. Revista Educação & Realidade, Porto Alegre, vol.28, n.2, 2003. p.101-115.

Um comentário:

Antonio B Duarte Jr disse...

Parabéns pelas dicas e artigos de ótima qualidade do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver meu Curso de Informatica online