terça-feira, 31 de março de 2009

Sobre leituras e leitores

Hoje eu estava preparando minha aula, para a disciplina de Instrumentação para o Ensino de Ciências e Biologia, sobre a importância da leitura e escrita para estudantes de Ensino Médio. Mesmo sendo uma formadora de professores do campo da Educação em Ciências, penso que o aprendizado da leitura, em um sentido amplo, é demasiadamente importante para se deixar a cargo de somente uma disciplina (o Português, ou Literatura). Cada professor deveria se envolver com esse processo de leitura e interpretação (de textos, da vida, do mundo…). Recentemente comprei um livro de professores da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FACED/UFRGS) que trata do assunto. Ao deter-me no artigo que fala, especificamente, sobre a leitura no ensino de Biologia (Ensino Médio), acabei por prender minha atenção em um parágrafo específico, em que a autora (Kindel, 2008) discute, a partir de um trecho de livro didático, como é preciso que nossos estudantes entrem em contato com a linguagem das Ciências Biológicas (e da Química também) para entender do que falamos na sala de aula, uma vez que a Biologia possui códigos e signos próprios, desconhecidos das pessoas em geral. O exemplo usado por Kindel, extraído do livro didático, possuía palavras que, por si só, não necessariamente possuíam significado em se tratando de um público leigo em relação ao assunto, tais como poliidroxialdeídos, poliidroxicetonas, glicídios, hidratos de carbono, etc. Kindel (2008, p.92-93), a partir desses termos, interroga

Quais habilidades seu/sua aluno/a terá que apresentar para saber ler, interpretar, decodificar, para poder usar os conhecimentos acima descritos? (...) Se queremos realmente ensinar aos/às nossos/as alunos/as sobre os glicídios e sobre a sua interferência na saúde das pessoas – especialmente os acúcares –, teremos que primeiro ensiná-los a ler!” (Kindel, 2008, p.92-93) [obs: o texto do livro didático tratava sobre glicídios]

Mas… O que significa “Ensinar a ler?”

Zaratustra, o mestre protagonista do livro Assim Falou Zaratustra (Nietzsche), vai afirmar a importância de nos tornarmos independente dos ensinamentos recebidos, como discípulos devemos lutar pela autonomia, pelas nossas idéias, nas palavras dele: “Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas o aluno”. Com isso, o mestre nos aponta que não devemos permanecer seguidores daqueles que nos ensinam, não é isso que anseiam os educadores. Pelo contrário, ensinar é possibilitar caminhar sua própria história. Os discípulos que Zaratustra quer são aqueles que buscam seu trajeto, buscam-se a si mesmos.

Como produtores e divulgadores do conhecimento, nossa tarefa também não se mostra diferente. Tanto como professores, pesquisadores ou escritores, devemos procurar desenvolver nosso trabalho no sentido de propiciar sujeitos-alunos, sujeitos-leitores que tomem nossos dizeres como ponto de partida e não de ancoragem – o espaço que, sim, é seguro, mas sem capacidade de criação.

O autor Jorge Larrosa discute essa relação entre educação, os atos de ensinar e a leitura, a partir do filósofo Nietzsche, e defende que “ensinar a ler de outra forma é educar o homem por vir, o homem do futuro. Porém, ensinar a arte da leitura não é transmitir um método, um caminho a seguir, um conjunto de regras práticas mais ou menos gerais e obrigatórias a todos” (p.25). Nesse sentido, a aprendizagem se dá não através de conceitos e práticas/protocolos, prontos, acabados. Não existe aprendizagem fora do pensamento, da reflexão, ou seja, não existem modos de ensinar aos estudantes sem que se leve em consideração em que aquilo que falamos se relaciona com suas vidas. Não para ditar regras, costumes e valores arraigados de nossa ciência e nossa sociedade, mas para que possamos oportunizar novas maneiras de olhar e agir – consigo e com a sociedade. Assim, Larrosa dirá ainda que “a tarefa de formar um leitor é multiplicar suas perspectivas, abrir seus ouvidos, apurar seu olfato, educar seu gosto, sensibilizar seu tato, dar-lhe tempo, formar um caráter livre e intrépido... e fazer da leitura uma aventura. O essencial não é ter um método para ler bem, mas saber ler, isso é: saber rir, saber dançar e saber jogar, saber interiorizar-se jovialmente por territórios inexplorados, saber produzir sentidos novos, múltiplos”. Finalizando, Larrosa dirá que “todos os livros estão para serem lidos e suas leituras possíveis são múltiplas e infinitas; o mundo está para ser lido de outras formas; nós mesmos ainda não fomos lidos” (Larrosa, 2002, p.26-27).

Nesse sentido, trabalhar a leitura é, simultaneamente, trabalhar nós mesmos, olhar e sentir o que lemos como algo que fará parte de nós, mas, para tanto, temos que modificar o lido, transformar o lido em algo novo, inédito. Ler implica em corromper, decompor o lido, para constituir-se – o texto e a si mesmo – novamente. Assim, ensinar a ler (e escrever), mais do que juntar letras e palavras, formar orações, é formar sujeitos – nós e outros…

Referências

Kindel, Eunice. Do Aquecimento Global às Células-Tronco: sabendo ler e escrever a Biologia do Século XXI. In: Ler e Escrever: Compromisso no ensino médio. Porto Alegre: Ed.UFRGS, 2008.

Larrosa, Jorge. Nietzsche e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

4 comentários:

Alcione Torres disse...

Ana

Gostei demais desse seu texto.
Sempre defendi que o professor de Química precisa se preocupar com a leitura e a escrita de sues alunos tanto quanto o professor de Português. Várias das simbologias utilizadas em Química como específicas dessa ciência não dependem nada da língua que se fala, lê e escreve, mas para se entender todo o resto de coisas que envolve essa ciência e para entender o que o professor quer ensinar, é preciso que o aluno saiba ler, escrever, interpretar na sua língua materna.

Alcione Torres disse...

Tem selo para você no meu blog!
http://ensquimica.blogspot.com/2009/03/vale-pena-acompanhar-este-blog.html
Abs.

Ana de Medeiros Arnt disse...

Oi Alcione!

Que bom que gostaste do texto! Acho que este livro que citei é bem interessante (Ler e Escrever ...), ele trata exatamente da importância da leitura (tanto para professores como para estudantes) no Ensino Médio. E tem autores de todas as áreas. Vale a pena obter!
É interessante pq tanto o texto da Eunice Kindel, quanto da professora de Química (do livro) tratam da questão de aprender a linguagem das ciências, dos signos e terminologias, que são tão distantes da vida das pessoas... Essa idéia mais ampla de leitura - que vai além do português!
Abraço

Avassaladoras Rio disse...

Querida amiga avassaladora...
De fato, educadores estão vivenciando um momento muito delicado e desgostoso da tarefa de educar...
Poucos estão dispostos aprender. Hoje se cumpre etapas quase um "game" que pontua e passa de fase para fase... estuda-se por que se "deve" e não porque deseja apreender conhecimento...
Mas , pergunto.. o que será que faz o professor prosseguir?
Spu do tempo de filmes como "Ao mestrecom carinho" em que um educador tem prazer em educar e transformar alunos em cidadãos... mas será que é coisa de filme?
Desejo muio que não.