sábado, 15 de novembro de 2008

Disciplina e escola: que sujeitos formar?

Fala

Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto...

Se você disser tudo o que quiser, então eu escuto...

Fala...

Se eu não entender, não vou responder, então eu escuto...

Eu só vou falar, na hora de falar, então eu escuto...

Fala...

(Fala, João Ricardo e Luli)[1]

Logo no início do mestrado, com as primeiras leituras que fiz desse livro, Vigiar e Punir (em especial o capítulo Corpos dóceis e Recursos para o bom adestramento), recordei-me deste poema, musicado pelo conjunto Secos e Molhados.

A meu ver, esta música pode ser pensada como um estudante falando sobre sua rotina na sala de aula. Uma rotina que o ensina a permanecer em silêncio, pela noção construída de que não há nada a ser dito, por sua pessoa. Só abre-se espaço para a palavra em poucos momentos, mas na totalidade, se escuta. Por outro lado, há alguém (um professor?) autorizado a falar, que diz tudo o que quiser, que faz as perguntas e autoriza (ou não) o outro a falar. Foucault trata isso como o poder disciplinar, que visa a um controle das ações do corpo dos sujeitos, tornando-os dóceis e úteis, nas palavras do autor: “forma-se uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe” (Foucault, 2001, p.119). Desse modo, tanto professor quanto aluno tem o corpo disciplinado, sabem seu papel dentro da sala de aula (falar, escutar, “ensinar” ou “aprender”), ambos estão sendo interpelados pelo conjunto de saberes e poderes que funcionam naquela instituição aumentando a produtividade – seja em relação à quantidade de conhecimentos a serem trabalhados ou ao modo como os estudantes devem se portar na sociedade.

Tal idéia, associada a esta música, leva-me também a um aforismo, escrito por Larrosa:

Para ler, o estudante dispõe de todos os livros. Alinhados, ordenados, valorados. Cada livro em seu lugar. E todos à mão, perfeitamente disponíveis, dispostos, à sua disposição. O estudante começou a estudar com a segurança de que os livros, convenientemente reproduzidos e transmitidos, cuidadosamente editados e anotados, estão ali em uma espécie de plenitude: a plenitude sem falha da cultura, a prova palpável de sua imensa generosidade. Mas logo sente uma vertigem. Houve um momento que também se sentiu feliz diante da presença firme e segura de todos esses livros. Também ele sentiu o que neles existe de prestígio, de segurança, de promessa. Também se deixou seduzir por esse inventário bem ordenado dos produtos da cultura, por todas essas certezas alinhadas. Mas um dia se sentiu sufocado. E sentiu que os livros, em sua generosidade, não lhe deixavam espaço. (LARROSA, 2003, P.51)

Larrosa, neste aforismo, traz outra dimensão da disciplina, não só o controle do corpo (da fala e dos gestos permitidos em um espaço determinado – a sala de aula), mas da ordem, da disciplina como organização para uma maior eficácia, como discute Foucault (2001, p.123)

a regra das localizações funcionais vai pouco a pouco, nas instituições disciplinares, codificar um espaço que a arquitetura deixava geralmente livre e pronto para vários usos. Lugares determinados se definem para satisfazer não só à necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também criar um espaço útil (grifos no original).

Embora o autor trate da organização e localizações em relação aos corpos (distribuição das pessoas em um espaço definido), isso também se refere aos espaços ocupados pelos corpos, e onde eles estão atuando – como os livros descritos por Larrosa – ou como diz Foucault, trata-se da célula, da quadrícula, os espaços funcionais para um corpo.

É interessante trazer isso nos dias de hoje, pois muito se contesta muito a questão da homogeneização[2] e da falta de individualidade nas escolas, mas simultaneamente a constante reclamação de indisciplina se faz presente. Assim, nos remetemos à questão: que aluno queremos? Que sujeito queremos formar/produzir para a sociedade? Quando nos colocamos como formadores de sujeitos, é impossível não nos tomarmos como disciplinadores – organizando espaços, tempos e corpos, controlando movimentos, a fim de torná-los mais eficazes, mais produtivos para a sociedade que vivemos. A questão que fica (e termino meu texto – que já está longo – com ela) é que se ainda queremos que essa formação/produção de sujeitos se dê através de processos de escolarização, temos que (re)tomar a responsabilidade para nós (professores), não culpabilizando pais, mídia e outras instâncias pelos modos como os sujeitos estão hoje na sociedade (indisciplinados, incivilizados, pouco produtivos e outros atributos que tanto ouvimos dos professores).

Bibliografia

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 25ª Ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987. Capítulo Os corpos dóceis, p. 117-142.

LARROSA, Jorge. Estudar=Estudiar. 1ª ed. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.


[1] Poema, musicada por Secos e Molhados.

[2] Que deve, sem dúvidas, ser discutido. Talvez pensando no sentido da relação, da distribuição e localização uniforme e correspondente uns em relação a outros, e não da igualdade - sem distinção entre uns e outros.

(Produzido para a disciplina "Desafios Contemporâneos: inclusão, disciplinamento e subjetivação", do Programa de Pós-Graduação em Educação -FACED/UFRGS)