quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Diz quem foi que inventou o analfabeto
E ensinou o alfabeto ao professor

(Chico Buarque, Almanaque)

 

Narodowski, em seu texto "Adeus à infância (e a escola que a ensinava)" nos traz o questionamento da infância como produto da história, como fabricada nas redes sociais para questionar a função da escola nos dias de hoje.

Hoje, irei me deter na discussão acerca da escola e suas relações com a infância e sua produção. Narodowski (1998) defende, em seu artigo, que “a instituição escolar é o dispositivo que se constrói para encerrar a infância e a adolescência. Encerrá-la tanto do ponto de vista topológico ou corpóreo quanto do ponto de vista das categorias que a pedagogia elaborou para construí-la” (p.173). Seguindo no texto, o autor diz ainda que “a infância gera um campo de conhecimentos que a pedagogia constrói, mas, ao mesmo tempo, é um corpo – o corpo infantil, o corpo adolescente – depositário do agir específico da educação escolar” (id.).

Ao desenvolver a análise acerca das novas maneiras de se viver a infância e dos reflexos disso na instituição escolar, Narodowski discute como o conceito de “aluno” entra em crise, uma vez que a categoria “aluno” funcionava para um tipo de infância, diferente da que temos nos dias de hoje. O autor defende: “temos que nos colocar de novo a idéia de construir um saber no interior da escola”.

Ao ler este texto, fiquei interrogando-me: redefinir a infância, a escola e quem/como são os alunos não seria redefinir a nós mesmos?

No último parágrafo do texto, o autor debate que é possível pensar a escola e a infância não em termos de reforma, mas como um desafio.

Tenho questionado muito, a partir de meus estudos, minha prática como “professora de professores”, pensando em como prepará-los para atuar nesse mundo em que as instituições modernas estão em crise, como diz Narodowski. Constantemente sou interpelada pelas perguntas de meus estagiários, que insistem para que lhes dê respostas com soluções eternas, seguras e que, conseqüentemente, não possíveis de serem executadas com pessoas...

Nesse sentido, trago a música Almanaque, de Chico Buarque. Esse verso da epígrafe é, para mim, interessantíssimo, pois traz essa questão da construção dos sujeitos na sociedade: quem inventou o analfabeto e, por conseqüência, quem tornou o professor o sujeito de conhecimento (que reforça o analfabeto como tal). Nossa profissão (e mesmo a sociedade como um todo) parece ter esquecido que o aluno, como sujeito, é alguém construído, constituído dentro de uma lógica, a partir de uma instituição inventada, não natural em nossa sociedade... E assim, ao esquecermos que nosso aluno não 'nasce' aluno, também não nos damos conta que é nossa função, como professores - ou educadores -, ensinar a criança (ou o adulto, nos EJAs) a ocupar esse papel de "aluno" - ou "educando".

Continuo sem entender como, cotidianamente, os docentes têm se eximido dessa tarefa, grande parte das vezes pautados em uma lógica de que ensinar o sujeito a ser estudante é função dos pais, ou de outra instância social que não da escola - e dos sujeitos que atuam nesse sistema de ensino, em especial os docentes - e também fundamentando-se que tal ensinamento vincula-se a uma lógica de disciplina como repressão, falta de liberdade, censura... Disciplinamento e repressão não necessariamente são sinônimos, e esta idéia, levada ao extremo, é o que vem tornando cada vez mais difícil lidar com as individualidades escolares. O conceito de "Liberdade" transformou-se em "tudo vale, tudo pode", em nome da não-repressão!

Ora, adultos ocupem seus postos! Liberdade e baderna não são sinônimos, nem disciplina e autoritarismo! E quem não gostar de um pouco de civilidade, que atire a primeira pedra...

Referência:

Narodowski, Mariano. Adeus à infância (e a escola que a educava). In: SILVA, Luiz Heron, (org.). Porto Alegre: SMED, 1998. p.172-177.

2 comentários:

Anônimo disse...

Estava a procura de algo que me fizesse entender um texto de didática e em miha busca encontrei esse texto que me fez refletir e imaginar que professora serei eu... Foi muito bom...

Ana de Medeiros Arnt disse...

Agradeço a visita!! Volte sempre!