quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Arte & Ciência: Experiências e Inclusão

As escolas podem perfeitamente se tornar locais singulares, como mundos próprios nos quais cyborgs geracionalmente diferentes se encontram e trocam narrativas sobre suas viagens na tecno-realidade – desde que nós nos permitamos reimaginá-los e reconstruí-los de uma forma inteiramente nova em negociação com aqueles que um dia tomarão nosso lugar (Green & Bigum, 2001, p. 240).

Em um desses finais de semana, cheios de coisas atrasadas para fazer, eu estava procurando um livro leve e tranqüilo que não me levasse a pensar em trabalho e qualquer coisa relacionada às pesquisas, enfim... Algo para ler e descansar... Doce ilusão, claro. Deparei-me com um autor que aprecio e há muito não lia: Aldous Huxley. O livro, intitulado A Situação Humana, é uma compilação de uma série de conferências pronunciadas no ano de 1959 e publicadas posteriormente.

No primeiro capítulo, Educação Integrada, o autor defende a importância de um ensino não fragmentado e do diálogo entre áreas extremamente especializadas. Huxley discute como, para termos uma educação integrada, devemos ter pessoas que são pontifex (que ele traduz, do latim, como construtor de pontes) (Huxley, 1982).

Sem maiores delongas, me importa aqui aproximar dois textos – o Alienígenas em sala de Aula, de Green & Bigum e o já citado de Huxley – produzidos em épocas tão distantes...

Green & Bigum nos apresentam em seu artigo a discussão sobre a “nova” geração de alunos jovens e adolescentes e os impasses enfrentados pelos professores adultos que vivem em outro tempo, lastimando da falta de cultura e interesse do primeiro grupo. Sem focar no debate de “quem é, afinal, alienígena e/ou alienado” (afinal, depende de que lado estamos olhando – não só em relação a faixas etárias, mas grupos sociais: somos alienados/alienígenas em relação a quem? E a quê?), achei interessante o modo como termina o artigo, citado na epígrafe. Ao debater a escola como espaço em que pessoas de diferentes lugares/posições se encontram e trocam experiências eles pontuam como caminho a reinvenção, uma nova produção de sentidos sobre as experiências e conhecimentos de outros grupos sociais.

Huxley, em sua fala, vai traçar um caminho possível de diálogo entre ciência e arte, perguntando-se de que vale uma sem a outra. Se a ciência existe, mas ninguém entende, será que a arte não poderia ser: essa instância de produção de sentidos para outros grupos (não-cientistas)? O espaço de significados que une grande parte das pessoas, suas vivências cotidianas e uma teorização abstrata e aparentemente sem contextualização nenhuma? Não poderia ser a arte (o artista) um pontifex? O autor defende, a partir do livro Lyrical Ballads de William Wordsworth, escrito no final do século XVIII, que “as mais remotas redescobertas do químico, do botânico, do mineralogista, não são temas menos adequados ao poeta do que qualquer outro tema, desde que sejam assuntos interessantes para os seres humanos em geral e possam ser analisados na medida do que fazem ao homem como ‘ser que goza e sofre’ ”(Huxley, 1982, p.13). Continuando o argumento o autor defende, ironicamente, que o ensino (e o ensino da ciência, especificamente) atêm-se mais ao “ser que sofre” (e causa sofrimento) do que o “ser que goza” (e proporciona prazer).

Bem, a proximidade dos textos, penso eu, está exatamente nesse distanciamento colocado por Green & Bigum, entre duas gerações – que falam e pensam sobre o mundo de formas distintas, sem conseguir comunicar-se. O professor (nós) com um saber que consideramos válido, o científico, e algumas formas específicas de falar e escrever sobre esse conhecimento. Os estudantes, por outro lado, com manifestações culturais diversas, não afinadas com o que o grupo anterior gostaria, muito ligado à mídia e formas de expressão e escrita não legitimadas por nós, adultos.

Pois bem, nesse sentido, o convite de Huxley ecoa (para mim, em mim...): será que a arte, considerando-a como manifestação e visão de mundo, como interpretação, crítica, vivência e, talvez, alargando o conceito de arte como cultura, de um modo geral, não seria essa possibilidade de encontro e trocas de narrativas de que falam Green & Bigum? Um modo de negociação, reinvenção, na tentativa de não deslegitimar o outro, mas agregar, “reconstruí-los de uma forma totalmente nova” como defendem os autores?

Impressiona-me, de fato, que essa discussão pareça – com suas particularidades, claro – ser um retorno a preocupações que eram demonstradas no passado e foram guardadas em gavetas obscurecidas... As tecnologias mudam (mudaram), o olhar para o jovem mudou, mas ainda não conseguimos atrelar ao conhecimento científico-tecnológico significados de nossa vida rotineira. Em se tratando de inclusão e exclusão, estamos, talvez, deixando de fora a possibilidade de estudantes vivenciar, experimentar o conhecimento: de arte e de ciência; de sentimentos e de abstrações; de belezas e incertezas; de relações (produtivas) entre as gerações... Não seria essa uma cruel exclusão?

Referências bibliográficas

Green, Bill & Bigum, Chris. Alienígenas em sala de aula. In: Silva, Tomaz Tadeu (org.) Alienígenas em sala de aula: uma introdução aos Estudos Culturais em Educação. Petrópolis: Vozes, 2001. p.208-243.

Huxley, Aldous. A Situação Humana. Porto Alegre; Rio de Janeiro: Editora Globo, 1982.

(Produzido para a disciplina "Desafios Contemporâneos: inclusão, disciplinamento e subjetivação", do Programa de Pós-Graduação em Educação -FACED/UFRGS)

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